A menina do outro lado da porta

São Paulo, 28 de abril de 2017. (Faz frio pra caramba aqui)

Helena,

As coisas estão bem por aqui. Não sei, mas acho que nunca escrevi isso em nenhuma carta: as coisas estão bem. E se escrevi, acho que não foi muito sincero, era mais aquele “pera aí, estou sendo muito negativa”, mas é importante abraçar essas coisas negativas para falar que Ok, tudo bem não estar ok – e assim, quem sabe, aprender a descobrir que grandes desgraças podem ser infinitamente engraçadas. Né?

Esses dias percebi que esse começo, o caminho em que você é meio imaturo e não entende muito bem das coisas, mas precisa fingir ou aprender como o jogo funciona rápido, e acaba se enfiando em situações onde faz mais dívidas do que dá conta, aumenta uma história para se sentir melhor, diminuí outras para não pensar que tudo pode ser tão ruim e no fim, sabe, dá tudo errado? Esse começo de vida adulta é muito mais sobre fracassos do que nos deixam saber. E dizem que fracassos são terríveis.

Você tem um pé na adolescência e um pé na vida adulta, e tem dias que balança pra cá, pra lá, até que você cai de bunda no chão. Acho que comecei a olhar as coisas dessa forma e quem sabe curtir melhor a viagem.

Estava contando para alguns amigos como me sinto: com muitos calos e história para ser uma jovem de vinte quatro anos, muito nova para realmente me sentir madura para encarar a vida e dizer “tô pronta, vamos lá sua chata!”. É um limiar tenso, ora divertido. É sobre o peso de pagar todas as contas, encarar as reuniões mais assustadoras e trabalhar muito e não me sentir muito preparada.

Me dei conta que grande parte das pessoas que gosto agora não vão ser meus amigos daqui dez anos, que meus amigos de dez anos provavelmente não vão ser mais tão amigos, que as situações que achava grave faz alguns anos, hoje me são tão bestas, provavelmente meu hoje vai ser estranho daqui um tempo. Meu amor já não é tão romântico, não pautado em um sentimento enorme que faz loucuras, mas sim numa convivência incrível que dá suporte para todo esse amor no peito.

Tenho tentado me permitir rir de coisas graves e lembrar daquela Paola que podia contar piadas sobre todas as coisas – até as que não devia. Hoje, olho você toda energética, não querendo comer, não querendo dormir, não querendo ponto e penso como crescemos.

Helena, como nós crescemos.

Você logo menos faz quatro anos, eu logo mais faço vinte e cinco. Nós, juntas, vamos fazer cinco anos na vida uma da outra. Desde aquela época em que tomava mais café do que meu médico recomendava para uma mulher grávida, até o hoje, que ficamos até tarde assistindo desenho porque pode. Quem disse que não pode? Eu não.

Lembro que sempre fui a garota que ficava do outro lado da porta espiando as coisas, sem coragem de ir realmente até ali. Com o tempo, e o desespero financeiro, aprendi a chutar algumas portas. Mas a verdade é que bater, dizer Oi e pedir para entrar exige a coragem de ouvir um não e voltar lá pro canto, ou ouvir um sim e topar ver algo novo. Realmente novo. Como perceber que você já foi essa menina.

Voltei lá no passado e ri um pouco da cara dele (o passado), foi bom. Hoje consigo rir muito mais da cara das coisas do que ficar muito enraivecida e passar o dia com o estômago quase sangrando. Está sendo um processo e você tem me ajudado nisso.

Ver uma criança crescer tem um pouco de pensar que se você está aprendendo todo esse mundão novo, eu certamente posso aprender todo esse mundão novo também. E assim eu estou amando um outro homem, e falando para ele diretamente tudo que sinto, tudo que não permito, tudo que quero. E aprendendo a aceitar todas as dobras do meu corpo, todas as manchas que estão surgindo no meu rosto porque esqueço de passar protetor solar, toda a minha capacidade de criar coisas e fazer algo estranho virar algo muito bom com algumas palavras, com uma ideia.

E sinto um baita orgulho de ver você construindo uma referência positiva da nossa mistura. Você tem duas casas, dois bichinhos de dormir, um para cada casa, duas caixas de brinquedos, uma família em cada cidade, e assim como você sempre conseguiu expandir seu coração e entender tudo isso, eu consegui expandir o meu e estar com você na hora de dormir, em pensamentos, enviando bons sentimentos para sonhos onde canto parabéns para você.

Essa é uma carta bem simples. Nenhum ensinamento.

É só um aviso: estou no caminho. Melhorando. Curando as feridas.

Obrigada, filha.

Com amor,
Mamãe.

Sobre montanhas e a sua mãe

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Carta escrita no dia 2 de fevereiro de 2017.

Helena,

Faz um longo tempo desde que estive aqui.

Já escrevi nesse blog em madrugadas onde você dormia ainda bebê num berço montável, num quarto no terceiro andar do restaurante de uma cidade de seis mil habitantes. E depois escrevi de uma casa tão cheia de umidade quanto de infelicidade. Passamos também por um lugar enorme, cheio de sonhos, no meio da natureza, onde por um segundo acreditei que se o lugar fosse perfeito, tudo também seria. Mas não, meu castelo de fantasias desmorou com a mesma rapidez da percepção que não fazíamos a mínima ideia do que fazer.

Voltamos para minha terra natal, e escrevi de uma casa num bairro afastado. Te contei sobre o fim. Te contei sobre a mudança.

Chegamos em São Paulo com a esperança de encontrar algo que não sabia o que, mas encontramos a dura realidade: eu não estava preparada. Agora, com tantos meses, dias e horas passados colhendo os frutos dos meus erros, é necessário voltar para te falar sobre onde escrevo agora: estou numa sala, com dois gatos que não são meus, com o barulho de uma fonte de água e o vento levando a chuva para longe. Você mora com seu pai.

Todo dia eu acordo, olho para o lado, respiro fundo, você não está aqui. Agora você mora com seu pai. Você mora num lugar onde não precisa ficar tantas horas na escola. Nem tantas horas me vendo trabalhar para conseguir pagar tudo. Você está num lugar onde não vê.

Você continua protegida do jeito que juramos um dia manter. Não importa com quem, você sempre estaria bem.

E aceitar que você está bem agora com ele tem me feito vagar por essa casa, sozinha. Me faz entender e questionar ainda mais o peso que levo aqui no peito. Mais que o peso da saudade, a angústia de não te colocar para dormir todos os dias, de sentir que você está crescendo e eu estou companhando por vídeos, é entender que eu sou a mãe.

Ser a mãe me coloca numa posição onde a responsabilidade por você sempre será unicamente minha para o mundo. Se um dia você escolher algo que dizem ser errado, a culpa será minha. Você irá me culpar um dia por escolhas que fiz tentando meu melhor. Essa culpa que me é tão dura tirar do peito para finalmente conseguir dormir nunca irá sumir. Não é minha decisão ela estar aqui, a sociedade decidiu por nós.

Não importa se aos vinte quatro anos eu tenho lidar com mais peso e responsabilidade que grande parte das pessoas carregam em si, a verdade é que escolhendo ou não, isso é meu. As contas são minhas, as dores, os medos, a angústia, a saudade. Aquela menina que sentava na beira da rua e olhava as montanhas jamais iria imaginar o peso de algumas pedras daquela construção natural.

Eu tentei exaustivamente encontrar respostas nos últimos anos, Helena. Não tive referência, não houve amor e carinho, proteção e zelo. Nunca houve nada disso para que pudesse ter uma base. Sempre encontrei o desespero de tentar não repetir o que meus país fizeram caminhando para exatamente a mesma coisa.

Briguei por nós por medo. Me escondi e fiz coisas na hora do desespero. Teve dias que precisei de um colo que nunca veio, e ali, ouvindo você respirar durante o sono, chorei. Me aninhei na única coisa que tinha: você.

Me venderam a ideia de que se eu batesse de volta muito forte, eles teriam medo e se manteriam longe. E a verdade é que nada nunca se mantém longe, os horrores sempre vão nos encontrar. As ações dos desconhecidos e das pessoas que nos juraram amar sempre vão nos encontrar e o segredo não é ser rigído e retornar o mais forte possível. Isso é se machucar duas vezes.

Eu não estou trabalhando no que me faz feliz, mas ele paga sua escola, meu aluguel, as viagens para te ver, nossos momentos felizes. Não estou minimamente descansada, acho que todo dia sinto que posso ficar por horas igual uma estátua, mas acho que as coisas estão dando certo. Todo dia acordo no mesmo horário, faço as mesmas coisas, volto para a mesma casa, calculo os mesmos números, sinto o mesmo desânimo. E essa ideia de sucesso e felicidade que me venderam foi ruindo aos poucos.

O segredo que descobri nos últimos tempos é a fórmula mais antiga do mundo mas que nós jovens tanto ignoramos.

Paciência.

Paciência que vai doer menos. Paciência que seus planos vão sair do papel. Paciência que a culpa não é sua. Paciência, esse é o seu melhor.

A gentileza que tive que aprender e oferecer aos danos que chegaram entrando sem bater, também tive que aprender a ter aqui dentro, com o reflexo do espelho.

Tive que falar em voz alta que eu nem sempre serei suficiente para você. Que o meu melhor nem sempre será o melhor para você. Tive que fazer inúmeras viagens para te buscar e sorrir ao te pegar, porque esse sorriso é o preço para que você tenha uma vida tranquila.

Tive que aprender a acordar todo dia, olhar as coisas e respirar fundo: vai melhorar. Agora não está bom, mas está caminhando. E quando me perguntam como estou? Comecei a sinceramente a responder que estou bem.

Não porque tudo está perfeito, mas porque aprendi a lidar melhor com os problemas, as dores, os medos e tudo certamente ficará bem. E assim aprendi a confiar mais em mim.

Parece estranho, né? No meio de tudo isso estou virando a adulta que nunca tive a oportunidade de ser. Aprendi a entender que esse sucesso que vendem por aí é só mais um produto que precisa ser vendido e como todo produto: ele deve ser consumido.

Nos fazem procurar desesperamente a felicidade quando ela é só um ponto de vista. É um estado não adquirido por fundos e meios. Ela não é plena e eterna. Ela é um momento.

É só sobre ir no ponto certo daquela montanha e olhar. Se você olhar para cima verá tudo aquilo que ainda não consegiu caminhar, mas se olhar para baixo vai ver que conseguiu passar por muitas coisas e isso é um grande sucesso. Talvez isso te faça pegar outros caminhos para continuar a subida. Te faça aproveitar mais isso, e quem sabe até parar naquele riacho no meio do caminho. Talvez o topo já nem seja mais o que deve ser alcançado.

E todo dia eu levanto, olho o sol entrando pela janela, tomo banho, café, vejo sua foto, respiro fundo e saio. Tem dias que chego muito tarde e exausta, tem dias que chego e consigo ver um filme. Tem dias que fico em silêncio me sentindo a pior mãe do mundo. Tem dias que entendo as escolhas que tive que tomar.

Todos os dias faço o caminho imaginando realidades alternativas onde eu trabalho com o que amo, você está aqui, nós temos uma casa linda e não existe trânsito. Não é real, mas é o que me mantém caminhando. Nessa idade descobri que é necessário voltar a ter algo que perdemos na infância: perseverança e imaginação.

É continuar. Apenas continuar tentando, continuar encontrando soluções, continuar fazendo as coisas se encaixarem. Continuar imaginando formatos até então não pensados mas que servem muito bem naquele lugar. Quando pesar: parar, respirar e continuar. E com o pé no chão e a mente tentando estar no melhor ponto de vista da montanha, a realidade dura ganha contornos gentis. E a saudade ganha um sabor menos amargo. E o medo fica recluso e a solidão não chega perto porque nesse momento estou caminhando mais rápido que ela.

E na verdade, o que seria a solidão que uma boa companheira não é mesmo?

E quando chegar sua hora, querida. Quando você sentir essa coisa da vida adulta, não terei mágica, só a melhor coisa que posso te ensinar: perspectiva.

O lento respirar fundo e entender sobre a culpa que te pertence porque te colocaram. A compreenção das lágrimas que precisamos derramar. O abraço da realidade que pode ser moldada com nosso jeitinho mágico de fazer o melhor para quem amamos.

Gentileza nem sempre gera gentiliza.
Gentileza vai te fazer continuar vivendo porque ela gera a única coisa que importa: caminhar com o mínimo de paz que podemos encontrar no fundo do peito.

Com amor,
Mamãe.

Entre princesas e monstros

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Carta escrita no dia 2 de outubro de 2016. 

Helena,

Você quer ser uma princesa, e eu quero que você seja feliz, então precisamos ter essa conversa.

No canto da nossa cama, entre os travesseiros, você brincou pedindo para o príncipe ir te salvar. Ali, naquele momento, eu gelei. Também já fui a menina que precisava ser salva, e por um momento, achei que tinha sido, até ver meu príncipe encantado se tornar meu algoz. Ver meu querido e lindo príncipe me chamar de monstro por eu dizer que ele não iria me tratar como nada.

Eu sei que é uma brincadeira, mas também sei que brincadeiras são ferramentas de sociabilização. Sei que bonecas te ensinam a ser mãe, que um fogão pode simbolizar o que acham é o lugar de uma mulher no mundo. Sei que se um dia você se impor, não permitir que te quebrem, alguém vai te falar para ficar em silêncio. Vão tentar te vencer pela exaustão. Te machucar de formas que ninguém considere violência. Um dia podem de tirar a única coisa que pode te salvar: sua voz.

Naquele dia nós sentamos e conversamos que você pode ser uma princesa, mas que não precisa de príncipe, você pode construir uma escada e se salvar. Você pode subir nas costas do dragão e voar. Você pode se salvar, sempre. Você pode ser a protagonista da sua história. Pode gritar tanto até que fiquem transtornados e entendam que quem manda naquela montanha é você.

Hoje, meses depois, escuto histórias de uma princesa corajosa que desenha, pula, pega sua espada e grita atacar no parque.

A linha que separa a princesa de um monstro é o papel que eles desempenham. Se princesas são delicadas, frágeis, bondosas e cheias de candura, o monstro é a maldade, uma besta que manipula e planeja para causar dor. Ele é feio, barulhento. Ele é aquilo que ninguém quer ser.

O monstro é aquilo que ninguém quer ter que lidar, as princesas são o sonho de consumo. Sendo alguém que passou de um ponto para o outro, posso te dizer que o caminho é doloroso e cheio de decisões difíceis.

A primeira vez que gritei por ajuda me questionaram a ação de gritar, não quem me fazia gritar. Das vezes que tomei a dura decisão de não me deixar diminuir, não questionaram qual era a ocasião, me perguntaram porque continuava fazendo isso. Quando você desempenha um papel que acham que não te pertence, o papel ativo da pessoa que sabe o que quer ou não deixa que cometam violências contra a sua dignidade, vai notar como o papel de louca e mal caráter lhe caberá rápido.

Ninguém gosta de ouvir não. Ninguém gosta de ser tirado da zona do conforto. Todos gostamos de ter uma bruxa para queimar, um monstro para caçar, uma pessoa para culpar.

E se você não é princesa, qual outro papel resta?

Helena, de todas as prisões que já vi, a pior é aquela que você nasce e não sabe que está. A pior é aquela que dizem que reluz, tem um sofá confortável, uma cozinha brilhosa, um vestido engomado e nenhuma saída.  Porque ali você vai parecer feliz para o mundo, e quando implorar ajuda, talvez lhe peçam para sorrir.

Você é adulta agora, e de mulher para mulher, de mãe para filha, queria te dizer para não ser nem princesa ou monstro, seja você. Um dia vão te colocar algum nome, podem te sentar numa cadeira e apontar cada erro e falha, tentar te enlouquecer e fazer desistir. Não desista. Você não está louca. O monstro é outro.

Você não é uma princesa frágil e indefesa, você não é um monstro terrível, você é quem é. Você tem voz, sonhos, vontades, personalidade. Você é uma pessoa.

Nossas histórias infantis tem por centenas de anos ensinado qual é o seu lugar, sendo que o seu lugar não existe. O seu lugar é onde você bem entender. Eles dizem que não podemos fazer barulho quando devemos mais do que nunca fazer, porque nenhum abuso ou violência irá passar. Nossa história não termina com felizes para sempre, nossa história começa com a música que queremos cantar.

Não somos rivais nem inimigas, não vamos abandonar um reino no fundo do mar por um menino mimado. Não estamos aqui para esses personagens antigos que ainda ecoam em lugares tradicionais de nossa sociedade.

Nunca me senti tão feliz em dizer: quando chegar o dia, não beije o sapo, mande-os para a cozinha cantar com passarinhos e não se meter na sua vida. Vire a esquina e não olhe para trás.

Eu fiz, recomendo.

Com amor,
Mamãe.

Sobre nós

sobrenós

Carta escrita no dia 20 de junho de 2016.

Helena,

Foi com oito anos que percebi que havia algo errado. Talvez tenha acontecido antes, mas foi na cozinha da casa onde fui criada, numa manhã, que a consciência veio. O terrível e implacável cair da ficha que meu grito não estava sendo escutado. Que meu pedido de ajuda estava fugindo pelas imensas paredes erguidas entre as pessoas da minha vida.

Foi muito cedo que senti a primeira dor de notar como era insignificante ali, naquele espaço. Queria ser pessoa, mas não conseguia. Queria dizer que sentia medo, mas só sabia me encolher. E essa paralisia, esse grande desespero no fundo da garganta, o conhecimento dele mudou tudo.

Uma vez li em algum lugar que o conhecimento sempre irá te expulsar de algum paraíso. O conhecimento de algum abuso, abandono ou terror me parece o tipo de bater da porta sem volta. Você sempre vai esperar o pior, o medo de cair vai sempre correr atrás dos seus passos.

O maior desafio de ser sua mãe não é toda a rotina de ter uma criança pequena, muito trabalho e uma casa para cuidar, é continuar caminhando. É manter a esperança que o mundo não irá te partir, quebrar em caquinhos tão insuportáveis de superar.

Não vou poder te esconder e isolar, e cada dia mais sinto pavor. Me sinto mais atada, porque fazer o meu melhor por você não anula o fato de que alguém, que o mundo, não está fazendo o melhor por outra criança, e um dia essa criança será um adulto. Um dia esse adulto pode estar atrás de você numa rua escura, pode ser o amigo do seu amigo, pode ser tantas opções sobre o caminho que o terror de alguém pode transforma-se nos seus pesadelos.

Lembro tão nitidamente de quando meu irmão saia para as festas e minha mãe sentava na mesa da cozinha, fumava vários cigarros e olhava o chão. Ela sabia de algo que hoje sei. E todo dia queria não saber.

Faz alguns dias que entrei em uma delegacia para denunciar um crime. Sentei ali por três horas e vi uma dezena de pessoas entrarem. Crianças com o olhar já sem vida, mulheres exaustas e machucadas. Em cada olhar vi um pouco do que morria ali, naquela pessoa sentada num banco gelado de concreto. Alguém que habitava meu corpo.

Nós meio que excluímos automaticamente os problemas do mundo da nossa vida. Talvez seja a única forma de acordar todo dia, talvez seja a única forma de encarar o sistema. Perceber que os problemas das pessoas, da comunidade que você vive, também é seu, que as dores de alguém vai bater na sua porta, causa medo.

Porque não é sobre eu e você, sua família, meus amigos, é sobre nós.

Não é apenas um criminoso, mas todo o sistema que transforma aquilo em algo que possa acontecer. É os olhos que se fecham, os conhecidos que ignoram, é como coisas terríveis nascem em lugares desconhecidos com o aval de alguém maior, com mais poder. É sobre uma cultura.

Vai ser difícil encarar isso, querida. Mas você precisa encarar. Precisa estudar, observar, entender. É um longo processo que envolve perder muita gente no caminho. Entre abandonos e abandonados, vai restar mais dúvidas, mais questões. É um ciclo que não tem fim, porque os problemas que estamos inseridas não tem fim.

Mas lembra, quando fraquejar, não é sobre você. É sobre nós.

Tome o tempo. Respire. Descansa. Aos poucos você vai descobrir a melhor forma de fazer isso sem perder o que é necessário para continuar, e então continue.

Quando a noite for muito escura, a realidade muito dura, você sempre pode voltar para onde tudo começou e restaurar a força. Pode tirar um dia para olhar quadros, livros, crianças sorrindo e o resultado de tanta luta.

Você pode ler essa carta muito melancólica e lembrar que do ponto onde você está, sua mãe, eu, também estou tentando manter as pernas sem cair. Por uma linha de tempo, uma distância de geração, nós duas travamos a mesma luta de pontos diferentes.

Não por sangue, não apenas por laços afetivos, nós seguimos juntas, porque juntas é a única forma de seguir.

Com amor,
Mamãe.

 

Fale agora, não se cale para todo sempre

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Carta escrita no dia 13 de fevereiro de 2016. 

Helena,

Provavelmente penso sobre solidão desde quando crianças deviam pensar em apenas brinquedos. Lembro que eu sentia essa angústia profunda sobre a morte quando tinha uns sete anos. Um pavor de pensar que um belo dia, em uma nefasta manhã, eu não iria mais existir. E o que pode ser mais terrível do que não existir quando somos jovens?

Não correr, não brincar, nem pular, crescer, descobrir e desvendar? Toda a nossa existência se foca nos melhores momentos, no prazer, na alegria. Então é comum não saber o que fazer quando a tristeza, a solidão e os piores momentos batem na nossa porta.

Afinal, a gente vive para ser feliz.  Por que diabos precisamos falar sobre tristeza? E sobre solidão? Por que alguém precisa falar sobre tamanha fragilidade?

E aprendemos que isso é uma forma de ataque: se você está sozinho é porque merece, porque ninguém te quer. Se está triste é porque não sabe ser feliz. Não merece felicidade. Esses sentimentos terríveis nos colocam na posição punitiva.

E é horrível ouvir isso. Mesmo. É horrível constatar isso. É aquele tipo de coisa que nossos medos de infância não nos preparam para enfrentar. Mas a questão é: por que isso precisa ser ruim?

Eu tenho uma família enorme. Mesmo. Dezenas de tios e de primos. Fiz dezenas de amigos na minha cidade. Gente que está por aí há anos. Mas chega aquele momento que fazemos escolhas. É o momento em que começamos a perceber o mundo e nossa própria opinião sobre as coisas.

Diria que é o momento que você se senta na mesa de jantar e ouve uma piada racista e sorri porque quem disse é da família. É quando o seu melhor amigo ri da piada que chama uma mulher de vadia e está tudo bem. Você não faz nada.

No seu interior, bem no fundo, você sabe que está errado. Sim, você já achou isso certo alguma vez na vida. Mas, hoje, isso não acontece mais. Agora é inaceitável. E você fica em silêncio porque tem medo de perder aquela pessoa, aquele laço.

Nós temos medo de perder pessoas terríveis em nossas vidas só pela certeza de ter alguém. Eu sei, já senti isso. Aliás, esse foi o grande dilema da minha existência. Ficar e sorrir. Ir e ter paz? O que fazemos com questões que envolvem medos tão primitivos?

Deixei ir.  Dá saudade da família? Dá medo? Nossa, tem dias que me sinto paralisada. Mas entre ficar triste pela distância e sofrer ao ver tudo que acredito ser despedaçado, a escolha até agora me parece a melhor. Entre me sentir solitária até encontrar pessoas que acreditem, que escutem, que escolheram também nunca mais se calar, bem, a solidão acaba sendo boa.

Eu diria que tudo é uma questão de perspectiva, mas estaria sendo hipócrita. Poderia falar que é apenas escolha, só que eu sou privilegiada o suficiente para entender que é essa condição que me permite escolher.

E isso é tão complexo que ainda não consegui chegar numa conclusão definitiva. Mas se alguém só te ama calada e concordando, para quem é esse amor? Se alguém só está com você por laços de sangue enquanto te oprime, a quem pertence essa presença?

Depois de uns anos eu percebi que o medo não é sobre deixar de existir, mas existir para ser silenciada. Paralisada. É me tornar refém de tudo isso por medo de sentir tristeza em deixar partir ou da solidão de destruir pontes. Aquelas que só te levam tristeza.

Não é sobre ter coragem. Não apenas, porque coragem entra em um daqueles conceitos relativos que dependem de tantos fatores, mas sobre entender que você não deve suportar enquanto seu ser é destruído. Não deve aceitar. Nada nessa vida vale quando destrói a SUA vida. Quando você deve se encolher para ocupar o espaço que acham que te pertence.

Eu vou estar aqui. Sua família, seja ela quem for, estará aqui.
E, querida, por favor, não seja metade por nós. Por eles.

Fale agora, não se cale para todo sempre.

Fique aqui.
Se for completa.

Com amor,
Mamãe.

 

Lugar comum

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Carta escrita no dia 20 de dezembro de 2015.
O ano que mudou a nossa vida.

Helena,

Estava voltando do trabalho semana passada quando vi uma menina quase ser atropelada. Parece que meu destino é passar pela Avenida Paulista  e ver um acidente, e ficar ali, parada, como se o choque tivesse acontecido no meu corpo. E de alguma forma é sempre na alma. Dessa vez puxaram a menina que escrevia no celular animadamente a ponto de não perceber que estava na beira da calçada numa esquina de um dos lugares mais movimentados da cidade.

Ela, assustada, se encostou no muro e ficou respirando fundo, tremendo com o celular na mão. Preocupada, fui até lá perguntar se estava tudo bem. Talvez pelo choque, talvez pela necessidade, acabei ouvindo que a Carolina, uma estudante de 17 anos, estava fugindo de casa e iria morar com o namorado, e naquele momento em questão estava combinando como iria proceder.

Primeiro olhei para o céu, depois para aquela garota 6 anos mais nova, com um longo cabelo escuro e uma mochila azul e me reconheci naquela situação, fosse por paixão, fosse por não suportar mais os pais, ou até mesmo se o motivo fosse uma tendência à se rebelar, todos aqueles motivos que também já me motivaram.

Ela me contou em quinze minutos a história, sorriu, e partiu. Eu fiquei lá, vendo as pessoas passando, me perguntando, finalmente, depois de cinco meses, o que diabos estava fazendo nessa cidade. Caiu a ficha, Helena. Finalmente um grande balde de água fria despencava na minha cabeça.

Eu estava sozinha.  Ao meu redor milhares de pessoas corriam para urgências, saindo e entrando do trabalhando, se encontrando, amando, chorando e sonhando, e eu não era ninguém na multidão. Não era especial para ninguém ali. Chegando em casa não teria nada pronto, não teria um abraço, nem o conforto, só o meu reflexo no espelho.

Encostei no mesmo lugar daquela menina me sentindo pela primeira vez na vida vazia. Finalmente entendia o que era se sentir sozinho no meio de uma multidão. E isso me fez lembrar da primeira vez que saí de uma casa por vontade própria, lá com meus 13 anos de idade, poucos quilos, nenhuma ilusão para uma criança, saindo de uma casa por não suportar mais.

Já te contei essa história, mas não fui totalmente sincera, não falei o real motivo do porque fui embora. Não era apenas ser maltratada, era não ser aceita. Desde sempre fui a menina que ninguém queria no meio de uma família preocupada com seu próprio caos. Não era simpática, não falava, só queria ler, me achava feia porque não tinha nenhuma aptidão com nada do que me falavam.

Eu sei, é um clichê. Muitos filmes e livros já reproduziram isso. Só que eles não reproduzem com tanta precisão o terror que é viver isso. Me tornei uma mentirosa compulsiva na infância para suprir as lacunas da minha história. Não era uma menina no meio de um divórcio infernal, era uma garota cujo o pai era judeu e estava muito ocupado trabalhando. Não era alguém que sofria bullying na escola, era uma menina que não se importava com esses míseros humanos.

Anos me fechando em uma concha para me proteger da cobrança. Do medo, da solidão. Seja magra, porque olha só, sua mãe é gorda, você vai ser também. Sorria, olha só como minha sobrinha é, as pessoas gostam dela. Esses livros que você fica lendo são muito estranhos. Você é muito estranha.

E eu pensava que iria conseguir superar isso, que com o tempo iria doer menos. Com o tempo isso iria ser uma piada. Mas não é. Jamais será. E falar sobre isso sempre criará margem para alguém usar como ataque. E um dia grande parte das pessoas que você acha que nutrem algo por você vão partir. Em uma bela manhã você pode ser ignorada. Porque você decidiu falar, porque você decidiu se aceitar. A casa fica mais vazia, e pela primeira vez isso não é ruim.

Helena, ali naquele muro, no meio daquelas pessoas, eu não era estranha. Era mais uma na multidão. Estava sozinha! Sem ninguém para me incriminar, apontar, podar, rir ou silenciar. Se o preço para me libertar era esse, bem, poderia pagar por ele para sempre. Saber que meu trabalho reflete minhas crenças. Finalmente me sinto aprendendo algo, revendo privilégios, analisando tudo que me influenciou até hoje. Que temos os melhores amigos do mundo, e que você está crescendo tão forte, tão doce e independente.

Que tem dias que sento no sofá, tiro os sapatos, te dou o seu suco e fico ali, exausta, com o humor azedo, calculando todas as contas que se acumulam no fim do mês, mas que isso irá passar. Vou levantar, tomar banho, vamos brincar, dormir e será um novo dia. E hoje estamos mais perto da solução do que ontem. Que vou perder o sono, que vou me sentir culpada, mas que hoje, só por hoje, chegamos no fim do dia com um saldo positivo. Estamos juntas, estamos livres.

Tudo isso aconteceu em poucos minutos e a vida continuou. Peguei o ônibus, te busquei na escola, voltamos para a nossa rotina.

Não vou mentir dizendo que não tenho sonhos, que não espero algo de você, porque seria terrível. Realmente queria que você pudesse viver a infância que não consegui. A adolescência  que não pude ter. E quem sabe ser a adulta que eu ainda me esforço para completar.

Moveria céus e terra pelo o seu direito de ser o que você quiser. Ser o que você é. Não importa o tamanho do seu jeans, seu gênero, sua faculdade, ou a ausência dela, sua cor de cabelo, qualquer coisa. Queria que você pudesse um dia andar no meio da multidão e se sentir aceita.

Agora estou chorando bastante, e talvez essa carta fique difícil, mas queria poder garantir que nada disso será podado ou silenciado em você. E sei que sou uma, e o tempo passa. Sei que você irá enfrentar desafios, violências, preconceitos e estigmas, que talvez chegue o dia que te chamem de puta, adultera, fútil, estranha. Coloquem nomes para aquilo que desconhecem, ou jamais deviam querer supor. Um dia posso não estar lá para te defender.

Um dia você pode acreditar que não deve confiar em ninguém, assim como me senti. E os dois grandes conselhos que posso te deixar depois desse longo, exaustivo, destruidor e terrível ano, é: não desista e confie.

Não é sobre desconfiar de tudo e todos, mas confiar no seu instinto. Ele não mente. Ele dá medo, é difícil se ouvir quando somos influenciadas até amortecer os sentidos. Confie, Helena. Dê votos ao que o seu coração diz. O que sua mente manda. Se algo te diz que é abusivo, que está errado, que não pode ser assim, escute.

E não desista.

Essa parte é a mais terrível, tenho cicatrizes visíveis e tantas outras que ninguém pode ver, todas lembranças de desistências que terei que conviver para sempre. Só que ainda estou aqui, você ainda está aí.

Você está lendo isso, você chegou até aqui.

Esse é o nosso lugar comum, querida. É aqui onde todos nos encontramos. É quando você não sabe o que fazer, sentir e pensar. Quando a porta se fecha e no escuro você não encontra a janela. É aqui que você segura a minha mão. É exatamente nesse lugar tão vazio que a gente tira força da onde não existe.

Tiramos força das pessoas que aqui passaram.

Nesse lugar onde aquela menina tirou coragem, aqui que um dia passei quando era uma criança de cinco anos assustada. Aqui sua avó teve o primeiro filho aos 15 anos de idade depois de um abuso. Aqui sua irmã tirou ar para respirar até o último minuto.

Helena, é aqui que você vai tirar forças quando precisar. É aqui que nós sempre iremos existir. Para sempre. Essa força que envolve laços tão antigos, tão estreitos, que não pode ser limitado por sangue ou geração.

Sabe todas aquelas cartas, querida? Elas começaram para que você pudesse acompanhar a passagem do tempo, como tudo aconteceu, como um dia eu me transformei na mãe que você irá lembrar. Como convivemos com a nossa história.

Guarde nosso segredo não tão secreto.

Com amor,
Mamãe.

Pequeno guia prático para recomeços sem prática

 

12191158_989349761100445_8145514750767878547_oCarta escrita no dia 22 de novembro de 2015. 

Helena,

Quando tinha cinco anos meus pais se separam. E foi difícil. Lembro perfeitamente disso. Dele indo, a minha mãe ficando. Os anos com pouco dinheiro, pouca estabilidade. E lembro das visitas que fazia na casa da minha avó.

Na verdade, lembro muito nitidamente apenas de uma coisa: todo dia no fim da tarde meu pai sentava na beira da rua e ficava olhando o céu. E todo dia, naquele horário, passava um bando de passarinhos. Eles faziam esse mesmo caminho ano após ano. A árvore da frente foi partida por um raio, eu cresci, mas algo me diz que aqueles passarinhos continuam sua eterna caminhada para o outro lado do céu.

E sempre que transponho uma esquina, fecho uma porta ou viro uma página, sempre sinto que estou seguindo um caminho infinitamente antigo. Nossa civilização precisou superar e recomeçar para evoluir. Muitos corações partidos, cidades queimadas, passarinhos sem rumo, cidades extintas, animais esquecidos, uma quantidade inimaginável de partidas e despedidas para que eu, uma mulher sentada no colchão tomando sorvete, pudesse escrever algumas palavras piegas sobre.

E na verdade eu me sinto muito jovem com algumas cicatrizes velhas demais para o meu corpo, minha alma. São estrias, celulites, marcas que mostram um histórico de desistência, desespero, dor, felicidade, duas filhas, alguns relacionamentos fracassados, amizades incríveis e uma aptidão incrível para bater a perna na mesa. Marcas que me fazem humana. Que aprendi a me orgulhar, Helena.

Você vai precisar recomeçar em algum momento da sua vida. Eu sei que vai dar medo, você pode estar numa situação terrível, achar que não vai conseguir, que não dá conta. Recomeços são primitivos. Eles nos fazem questionar por verdades que nos contaram, mentiras que nos convencemos a acreditar, situações tão corriqueiras que a gente pensa que é normal. Recomeçar é uma forma de basta, de revolução. É admitir que não deu certo, mas que nós ainda podemos tentar.

Recomeços envolvem sujeira. É abrir a janela, jogar os tapetes fora, pegar toda aquela lama que a gente coloca nos cantos, por baixo, com medo de que alguém veja, ou pior, fique visível para os habitantes da nossa própria vida. É sujar as mãos, os pés, o corpo e depois lavar com a liberdade.

Recomeçar é deixar doer, deixar sangrar. Admitir que está ruim. Sabe, de tanto responder que tá tudo bem, um dia a gente acredita na própria mentira. Helena, não está tudo bem. Vai doer. Vai ser duro. Você irá aprender, mudar, se transformar. Reformular. E vai ficar tudo bem.

Um dia você vai acordar e vai estar doendo menos. Um dia a falta daqueles velhos tapetes que escondiam com a sujeira será algo bom. Vai entender melhor tudo que houve – e provavelmente vai perceber que não tem culpados, só atitudes ruins, péssimas escolhas. Cicatrizes que você nunca viu. Nunca verá. Outras que terá que conviver por todos os dias da sua vida. E irá se orgulhar, porque elas contam a sua história.

Eu sei que hoje eu não sou nem a sombra da pessoa que já fui. Semana passada estava no ônibus voltando para casa e olhei meu reflexo na janela. Fiquei olhando por minutos. Quando foi que me tornei mulher? Quando foi que meu olhar ficou assim?

Quando foi que eu finalmente assumi que coragem te faz perder pessoas, coisas, sonhos, mas a pior falta que existe é a de si mesmo. Hoje eu me pertenço. Como nunca antes. Recomeçar novamente me fez ver muito bem uma única coisa:  você precisa falar em voz alta.

Precisa dizer não em alto e bom som. Não pode ser só em carta, mensagem e telefonema. Você precisa levar isso para a sua vida, Helena. Precisa ter coragem não de recomeçar apenas, porque isso é consequência, mas de se assumir. De se permitir sonhar.

Quando você ler isso, será adulta. Então hoje te escrevo para contar que do lado de cá, nesse fatídico ano de 2015, nós estamos bem, estamos juntas, resistindo, brincando, comendo, sendo feliz. Por hoje nós conseguimos.

Continuamos olhando para o céu e procurando os passarinhos que a gente sabe, lá no fundo, que continuam voando para o lar. Porque é isso que importa.

Nosso pequeno guia prático para recomeços sem prática nos contou que com música, um pouco de persistência, um tanto mais de barulho, algumas revoluções silenciosas e dores nas costas, nós podemos. Nós conseguimos.

Com amor,
Mamãe.