How I met your father

papaicol

Escrito em 14 de abril de 2014, enquanto você via Lorax com seu pai.

Helena,

O conceito de família é muito estranho, a palavra em si, aproximadamente, seria “servir a uma casa”. Se você pensar que uma das bases da sociedade tem a ver com servidão, cria-se um problema, porque ninguém deve servir ninguém, muito menos quando o foco é viver uma vida toda juntos e espera-se ser feliz.

Como nos criamos nossa família? Bem, tem a ver com teimosia. Quando conheci seu pai, estava numa péssima fase que já durava 20 anos, antes dele não me lembro de ter tido uma boa fase realmente verdadeira e duradoura. Colhi os frutos de uma família machucada e traumatizada.

Começamos sendo amigos, com longas conversas sobre tudo – principalmente sobre meus problemas, admito -, ele foi minha salvação num momento horrível, só que não estava planejado que haveria algo mais que amizade, até porque ele tinha uma namorada.

O pior estava por acontecer em nossa história, quando ainda éramos amigos. Sua vó ficou doente e teve que ser internada, seu tio me expulsou de casa e me vi sem ter para onde ir e ele de alguma forma conseguiu conversar a sua vó paterna – que você ama de paixão, diga-se de passagem – a me aceitar em casa. Foram 2 anos terríveis.

Nunca tive uma família em si, minha personalidade nunca foi ajustável a situações, tenho verdadeiro pavor de fofoca e gosto de silêncio, ou seja, tinha tudo para dar errado e deu. Quando te explico que nosso relacionamento foi um caso de teimosia, é porque eu tentei desistir, fugir, senti raiva da minha fragilidade e situação, virei quase um monstro e seu pai continuou lá, segurando minha mão.

Agora, quando sentamos na cozinha para alguma refeição e eu pergunto para ele “Porque ficamos juntos? Temos nada em comum” a resposta é sempre a mesma “Foi o destino, ele nos forçou”. Sim, não gostamos das mesmas músicas, nem sempre dos mesmos filmes, nosso gosto literário diverge em vários pontos, enquanto ele é a simpatia em pessoa, eu já consigo levantar a raiva de alguém com muito pouco, seu pai tem uma delicadeza natural para explicar e trazer qualquer um para a luz da razão, já minha pessoa nem sempre consegue ver através na cortina de rancor.

No final, foi um balanceamento. Ele anula o que há de pior em mim e eu acho que consegui criar com ele algo que vale a pena lutar.

Essa história tem mais detalhes e podres do que vou colocar aqui, porque além de longa, algumas coisas só foram lições aprendidas, não merecem ser repetidas jamais, nem para uma narrativa. Só queria te deixar um relato do que formou nossa família: a persistência de que as pessoas valem a pena.

Mesmo aquele que te deixa com raiva, querendo chutar e gritar, que te causa lágrimas amargas ou pesadelos terríveis, há uma solução ou uma forma de inverter a situação, no pior dos casos, você aprende a lição e segue em frente.

Ainda temos vários problemas, divergências, opiniões fortes e opostas, mas conseguimos no meio de tanto espinho fazer nascer algo sólido. Almas gêmeas nem sempre tem um caso romântico ou são idênticas, almas gêmeas são aquelas que tem força o suficiente para lutar antes do ponto final.

Seu pai… Bem, ele é teimoso, como disse. É impetuosamente irritante com o cabelo, porque vira e meche se tranca no banheiro e saí meio careca, também é criativo e paciente, ele é um lutador, nunca vi alguém lutar tanto pelo o que acredita. Ele acredita no melhor do mundo.

Ele acreditou em mim e sempre irá acreditar em você.

Com amor,
Mamãe.

PS: Ele também fica encontrando meus erros de português nos textos, não consigo saber se isso é bom ou irritante!

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7 comentários sobre “How I met your father

  1. Você me arrancou uma bela quantidade de lágrimas com esse texto. E me fez pensar sobre muita coisa em relação a minha vida. Mesmo que não tenha sido sua intenção, afinal eu sou apenas uma pessoa aleatória que acabou encontrando seu blog, obrigada mesmo.

  2. Meu nome é Jéssica, tenho 19 anos e como a leitora aqui acima também encontrei seu blog por acaso. Li todos os textos, e meu Deus… estou sem palavras! De tudo o que li me restou uma certeza: o amor nos transforma.
    Sua filha é linda! Você uma verdadeira escritora.
    Em um país aonde prostitutas que escrevem blogs ganham notoriedade nacional por isto, encontrar um ”refúgio” com palavras tão sinceras, repletas de carinho, amor e pode-se dizer que, até mesmo, de sabedoria é um verdadeiro presente divino.
    Não sou mãe mas consegui captar (por segundos) a essência do que é ser.
    Desejo muitas felicidades pra sua família.
    Não deixe de nos comtemplar (e claro, de contemplar a Helena) com suas belas palavras e relatos.

    Abraços,

    Jéssica.

    • Olá, Jéssica.
      Fico feliz em ler isso, aliás, realmente não esperava o retorno que o blog está tendo. Uma das intenções mais nubladas do blog era tentar encontrar ou enviar uma mensagem para pessoas com sentimentos semelhantes ou com potencial para ter, é ótimo saber que pessoas como você estão chegando nele!

      Muito obrigada 🙂
      Abraços.

  3. Paola, sou apenas mais uma das muitas pessoas que encontrou o seu blog ao acaso. E juro que li todas as cartas pra Helena. E me emocionei em varias partes delas. E já estou ansiosa para a proxima. A Helena com certeza já é uma menina incrivel, pelo fato de ter pais tão dedicados e com um pensamento tão especial sobre a vida e crescimento dela. Posso lhe garantir, que atraves do seu blog, aprendi mto, e espero que com isso eu tenha me tornado um ser humano melhor. E se posso lhe dar um conselho, ou uma sugestão, sobre a sua primeira filha, a Laura, não diga que a Helena é a sua primeira filha, diga que é a segunda, e que a mais velha, é um lindo anjo que ilumina todos vocês;
    Fiquem com Deus, e muita saude pra toda a familia.
    Camilla

    • Muito obrigada pelas palavras, Camila. Acho que este blog não foi feito apenas para coletar as cartas para a Helena, mas para receber sugestões e passar mensagens que acho importantes para quem quiser ler.
      Acho que ainda me falta um pouco para superar o luto que é falar de Laura, mas realmente, não terei mais receios de falar que ela foi a primeira 🙂

      Abraço!

  4. Estou desacreditada do amor, comofas?
    Não do amor dos pais, que quase todo dia que eu posso falar, falo de como ele é o melhor que uma pessoa pode encontrar dentro de si, ele aumenta o coração, seja um tio-pai, uma avó-mãe… mas to desacreditada do amor entre um homem e uma mulher, entre uma mulher e uma mulher, enfim…
    Beijos pra ti, quantas cartas lindas! =*

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