Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada

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Carta escrita em 29 de abril de 2014, quando as lágrimas não bastam.

Helena,

Minha infância foi repleta de músicas e cantigas, como uma boa criança criada no interior de São Paulo, corri atrás do leiteiro na rua, brinquei eventualmente com algumas crianças na rua e tive um pouco do que a normalidade exigia. Um pouco.

Hoje vou te contar sobre uma das minhas maiores feridas: minha mãe. Sua avó foi diagnosticada com Transtorno Bipolar faz menos de 5 anos da data desta carta, mas posso confirmar que faz 22 anos que ela sofre com essa doença que ao contrário do que muita gente acredita, não é divertida, não é legal, machuca mais do que posso descrever.

Durante anos tive certeza que minha mãe era um péssimo ser humano e que por consequência era igual. Tal como ela, ganhei manias e hábitos que podem ser descritos como perturbadores, nunca confiei em ninguém, vivia num mundo próprio e acreditava que a única forma de ser especial seria cavando meu lugar no mundo com uma pá e a mesma pá eventualmente iria sacrificar outras pessoas.

Quando tinha 14 anos fui ao psiquiatra com ela, um protocolo na época do início do tratamento para a depressão profunda, lembro que logo após a sessão conjunta a especialista me chamou num canto e disse que quando fizesse 18 anos deveria “Correr o mais rápido possível para longe dela”. Sendo profissional ou não essa postura, me marcou de mais, e durante os últimos anos acreditei que o único caminho seria correr. Corra, Paola, corra.

E assim fui, corri. De tudo, de todos. Do medo, da dor, do amor, da amizade, do carinho, da intimidade, do mundo. Sabe o que ganhei? Mil e uma técnicas de como afastar pessoas com eficiência e como ser completamente infeliz. Também aprendi o que minha mãe fazia desde o dia em que nasci.

Sua avó sofreu muito e este é um ponto importante. Ela sofreu abusos, violência, humilhações e dores que preferia nunca saber, pois ele são pesadelos contantes na minha vida, mas é necessário entender que coisas assim deixam uma marca. Apesar de estudos falarem que Bipolaridade é genético, algo quebrou minha mãe e essa rachadura pode ser encontrada em todo o aspecto da doença.

Muitas vezes encontro essas dores em mim, causadas por ela, que foi vítima de outros. Uma história sobre dor e solidão, penso que a única forma de quebrar o vínculo é me tornar a melhor mãe do mundo e garantir sua felicidade, mas ainda vejo muitas coisas de minha mãe em mim, muita dor nas raízes da minha personalidade e tenho medo. Medo de um dia descobrir que assim como ela sofro dessa doença.

Existe a morte, o último estágio da vida, o ponto final para o que conhecemos e existe um tipo de morte mil vezes pior que é se sentir nulo, morto, mesmo estando vivo, andando por aí, conversando. Essa morte eu conheci, ela conheceu e você nunca irá conhecer, querida, porque minha única missão é garantir que você viva da forma mais plena possível e por isso escrevo isto.

Você precisa conhecer quem sou, quem sua família foi, quem você nunca irá ser. Tive uma casa muito engraçada, ela tinha teto, banheiro e rede, mas as pessoas lá dentro não tinham nada e do nada eu vim, do nada corri e do nada sempre irei morrer de medo.

Com amor,
Mamãe.

 

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5 comentários sobre “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada

  1. Oi, Paola. 🙂
    Eu leio suas cartas para sua filha as vezes (desculpe a intromissão, Helena), e nunca comentei. Mas hoje, eu preciso falar sobre isso.
    Na verdade, eu preciso agradecer. Obrigada. Muito obrigada.
    Minha mãe também é portadora da Bipolaridade, além de esquizofrênica.
    E tudo o que você escreveu, resume meus vinte anos, minha dor, a dor da minha mãe (que hoje, finalmente, eu consigo perceber), e o meu medo do futuro. Resume até mais do que eu gostaria. É um bocado de feridas, não?
    Há muito eu acreditei (e provavelmente ainda acredito, mas agora me esforço para não), que eu deveria correr do mundo. Há muito essa morte me atingiu, e me marcou eternamente. No meu mundo circulam as cicatrizes dessa morte, e disso eu não vou esquecer.
    Mas eu agradeço. Agradeço por você, de alguma forma, me ajudar a transformar isso. Por expressar em carta o que há muito eu guardo dentro de mim. Por me fazer me sentir humana.
    Por me fazer perceber que os meus questionamentos são humanos e dignos.
    Do nada eu também vim, do nada corri e do nada sempre irei morrer de medo.
    Mas agora, um pouco mais amparada, por uma carta que nem foi endereçada a mim, mas que me preencheu.
    Mais uma vez, muito obrigada.

    • Olá, Dandara!
      Fiquei imensamente feliz com seu comentário, acho que não existe satisfação maior para quem ama escrever que perceber que o conteúdo gerado faz a diferença no mundo. Faz anos que tento manter o diálogo sobre o Transtorno Bipolar e todas as doenças mentais, devido ao preconceito e completa falta de informação por parte as vezes até dos médicos.
      Meu irmão foi diagnosticado como esquizofrênicos, mas agora está muito bem, porém houve uma época em que as coisas realmente saíram do controle.
      Se um dia precisar de alguém para conversar sobre, considere meu contato em aberto 🙂
      Abraço!

  2. Eu me indentifiquei também. Minha mãe não foi diagnosticada, ela tem medo de ir ao psiquiatra e descobrir alguma coisa sobre ela mesma. Mas hoje, depois de eu mesma ter passado por uma depressão profunda, consigo entender ela muito melhor. Eu não forço a barra com ela, e nem comigo. Mesmo quando ela está triste ou agressiva eu busco manter a calma. Ajudou bastante.
    Eu espero que aquilo que você sente seja apenas medo mesmo, e talvez a dor de algumas feridas, pq elas podem ser curadas. Eu acredito que é muito difícil ser 100% diferente da pessoa que nos criou, sempre carregamos alguns hábitos, saudáveis ou não.
    Não tenha medo de errar como mãe, porque é provável que isso vá acontecer várias vezes. Não existe uma cartilha da maternidade e a felicidade da Helena, infelizmente, não vai depender apenas do desejo em seu coração. Mas você sempre vai fazer o seu melhor, e a Helena nem precisa saber ler pra entender isso nesse momento.
    Recado para a Helena:
    Eu não sei quantos anos você tem enquanto lê isso, mas se nesse momento você acha que sua mãe é chata, louca ou doente, saiba que que o amor que ela sente por você é uma coisa rara nos dias de hoje. Helena, você tem muita sorte por ter uma mãe que se dedica tanto a expressar o amor dela desde o princípio. Eu desejo muito que você seja consciente disso e valorize muito a dona Paola XD

  3. Oi Paola, li a maioria de seus textos, mas nesse precisei comentar. Minha mãe tem transtorno bipolar, e eu me identifiquei tanto com sua necessidade de correr, que talvez nunca tivesse notado o como ela é grande. Porque eu aprendi a odiar minha mãe muito antes de amar, e agora aprendo pouco a pouco o como ela é machucada, doída, quebrada. Mas é minha mãe, e apesar de ela mesma ter me deixado algumas cicatrizes,eu comecei a ver que só eu, no mundo todo, poderia amenizar a dor que ela sentia. Porque fui eu que fiz ela deixar de ter nada, afinal. E eu tenho ela, mesmo que não a mãe de comercial que eu idealizava na infância.
    Bom, eu sou igual a ela. E eu tenho medo disso. Mas aprendi a deixar de ter vergonha de ser meio quebrada também.
    Enfim, obrigada por me fazer ver que não sou a única no mundo com esse medo, faz o mundo parecer menos solitário, não?

  4. Oi Paola,
    Assim como as de cima e como você, também passei por todo esse drama com minha mãe. É difícil, é doloroso. Às vezes a gente não tem paciência, perdemos o controle. É uma batalha diária. Á dias melhores e outros bem piores.
    Acho que tudo isso criou-me medo, sabe? Acho que por não me sentir amada eu procurava o amor nas outras pessoas, muitas vezes de modo errado.
    O comportamento da minha mãe deixou sequelas no meu talvez inapagáveis. Hoje, de quase 18 anos (e quase dois de terapia) consigo entende-la e – finalmente – aceita-la.
    E é isso, todo dia eu procuro um motivo para ama-la e não desistir dela. Amo-a porque seria fácil demais odia-la

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