Helena, ao contrário do que dizem, pessoas não tem preço

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Carta escrita no dia 28 de julho de 2014, numa noite fria de trabalho intenso.

Helena,

Seu pai é um ilustrador e empresário, cujo sonho é criar entretenimento no Brasil com qualidade e isso é lindo, mas na prática é doloroso, porque ninguém aqui liga muito para isso. Eu, como escritora, professora, sonhadora, ativista, faz isso e aquilo ali, permeio a mesma esperança. Em resumo: dois loucos e um bebê.

Agora você tem um ano, não sabe de todas as questões financeiras, éticas e pessoais que enfrentamos. Como seus pais, nossa função é te proteger de informações que não dizem respeito a sua maturidade no momento, é preservar o seu direito de ser criança. Brincar, sorrir, correr, falar, descobrir, criar, esses são seus direitos e deveres para que quando você ler isso, seja uma adulta preparada para todos os desafios que chegam com o tempo.

O que me deixa mais triste e desesperada, é perceber que deram um preço para as pessoas. Não é uma faixa salarial para a sua profissão, um valor para o teu trabalho, um número para as suas necessidades, é um preço para o que cada um é. Não importa se te fazem mal, prejudicam, abusam e corroem, o importante é lubrificar essa grande máquina de fazer dinheiro que se tornou a população. Todo mundo pode ser convencido a se vender por uma certa quantia, dizem.

Fico me perguntando, se vale a pena ter tanto no banco quando se ostenta pouco na alma. A que preço estamos vendendo nosso futuro? Nossa felicidade? Todo mês temos gastos com nossa casa, impostos, comida, transporte e é um desafio conseguir isso, quando estamos em áreas tão desvalorizadas, mas vale a pena se vender para suprir isso? Não existe outra forma? Não existe um meio termo de sobreviver sem causar danos?

Sabe, Helena, é difícil. Tem mês que bate um desespero, tem dias que repenso com força toda a nossa vida e faço as contas. Coloco no papel todos os números que pagam o básico e o conforto, mas é necessário também colocar no papel a razão do porque existir. Existimos para se consumir? E quando já não restar nada, para que lado vamos?

Não consigo trabalhar diretamente com o que amo, porque isso me colocaria numa posição complicada e o mesmo vale para o teu pai. Ficamos nessa dilema eterno, balanceando, trabalhando da hora que acordamos a hora que vamos dormir. Você chega da escola, pausamos e logo depois que você dorme, lá estamos nós outra vez, debruçados, para compensar as escolhas que fizemos.

Helena, não importa a profissão que você escolher, saiba que o teu valor é superior a qualquer quantia. Suas criações, personalidade, princípios, sonhos, o que te faz é teu e isso não pode ser colocado num cheque. Em algum momento, você vai ter mais contas que possibilidades de paga-las, todo mundo passa por isso uma vez na vida e vai bater o desespero, mas a sua postura perante isso vai dizer muito sobre como será a sua vida.

E esta, é boa de mais para desperdiçar com pequenas coisas que se vão com o tempo. Nós ficamos, pessoas deixam marcas e são eternas para algo, para alguém. O propósito de tudo, atenha-se a isso, querida.

Com amor,
Mamãe.

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Um comentário sobre “Helena, ao contrário do que dizem, pessoas não tem preço

  1. Que lindooo! Amei o texto!! Realmente, o que a sociedade mostra é que só tem valor que possui bens materiais, quem é classe média/alta. E os demais valores são esquecidos, sua personalidade, princípios …enfim. Outra coisa que venho notando são que as relações estão vivendo de aparências e de jogo de interesses. O que é complicado!! Lei da selva, só vence quem for o “melhor”, quem tiver mais.

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