A palavra mágica

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Carta escrita no dia 23 de junho de 2014, após um dia difícil.

Helena,

Nada me deixa mais triste que perceber a distância que estamos um dos outros. Podemos morar anos num prédio e não conhecer o vizinho, cumprimentar, ofertar uma ajuda. Passamos na rua por velhos colegas de escola e fingimos que não vemos. Estamos alheios a tudo, focados em nosso pequeno mundo.

Quando tinha 11 anos, comecei a ir para a escola sozinha. Era 15 minutos de caminhada na manhã fria e solitária, geralmente lendo. Sim, eu lia enquanto andava e não me pergunte como conseguia isso. Logo na primeira esquina de casa, sempre me deprava com um senhor. Ele devia ter seus 50 anos, jeans e casaco, cabelo bem aparado, barba feita e um sorriso no rosto.

Com os anos, descobri que ele pegava o ônibus para o trabalho naquela esquina e se tornou um hábito encontra-lo as 6:30 da manhã de sexta a sábado. A vida não era fácil nessa época, morava com meu pai, minha madrasta, minha irmã pequena e o filho do primeiro casamento da minha madrasta. Foram incontáveis os dias que fiz esse caminho chorando, pensando na melhor maneira de fugir.

O que me marcou profundamente sobre esse senhor, era o seu Bom dia. Sempre que passava, ouvia o cumprimento. No inicio, mal olhava. Quem era? Podia ser um tarado ou louco. Um dia, distraída, respondi Bom dia de volta e quando percebi, isso se tornou um ritual.

Saia de casa ansiosa para virar aquela esquina e começar meu dia, porque aquilo decretava que tudo daria certo. Não importava se as coisas em casa estavam horríveis, que eu odiava a escola ou qualquer outro problema, eu começaria meu dia de forma boa. Aos finais de semana, ficava sentada na beira do portão, esperando alguém passar, para dizer Bom dia.

Naqueles anos solitários, aquele senhor me fez feliz. Parecia que ele importava-se, que era um cumprimento especial, uma palavra mágica para aliviar as dores. Faz 5 anos, retornei para ver a antiga casa, para andar pelas mesmas ruas e tentar encontra-lo. Já bem mais velha, quase ninguém me reconheceu, mas quando passei por ele e dei o meu Bom dia, um brilho de reconhecimento passou naqueles olhos e foi isso, minha forma de dizer obrigada.

Helena, com apenas uma palavra, podemos destruir ou firmar sonhos. Às vezes, tudo que alguém precisa é uma palavra gentil, um motivo para acreditar que nem tudo está perdido. São cumprimentos simples, mundanos, que podem ser carregados de tudo aquilo que desejamos para o próximo e isso faz toda diferença.

Bom dia, Helena.

Com amor,
Mamãe.

 

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