Helena, não ame em vão

nãoameemvão

Carta escrita no dia 13 de outubro de 2014. 

Helena,

É um fato histórico a necessidade da mulher “precisar” de um relacionamento que a proteja, complete e estruture toda a vida. Há oito mil anos atrás era necessário para a perpetuação da “família” e a raça humana. O casamento é algo social, político e uma exigência.

Explicam isso desde cedo, durante a infância fazem piadas que teremos vários namoradinhos; na adolescência é esperado que aconteça o florescer do amor por outro homem, aquele que irá nos ensinar como sua presença é necessária. Também é comum dizer que é preciso estudar para casar, porque vai que ele te dá um pé na bunda, você não pode ficar triste, porque terá dois filhos para criar. E veja bem, se o ato de ter uma família é um dever, o de criar os filhos da forma mais perfeita possível é uma exigência.

Querida, eu fui criada para acreditar que se fosse violentada, humilhada ou diminuída, nada disso seria pior que ficar sozinha. Criar filhos sozinha seria o decreto da minha infelicidade. Ninguém me disse que eu podia não casar, não namorar, não ter filhos. Dizer não e ponto.

Aliás, nunca nem me foi falado de amor, me foi falado de dinheiro, casa, carro, faculdade e fazer a escolha certa. Por isso me sinto imensamente feliz em lhe escrever que você não precisa de ninguém para ser feliz. Você jamais irá se isolar do mundo, das pessoas, de sentir coisas e vivenciá-las, mas tudo parte de se empoderar e fazer suas escolhas.

Você pode ser imensamente realizada sem uma família ou com uma família de qualquer formato. Pode conhecer a plenitude na maternidade, ou não. Você não necessita daquilo que julgam necessário para ser uma pessoa realizada, a única ferramenta necessária é acreditar que você pode ter tudo que precisa para conseguir isso sem cumprir as exigências alheias. Que pode escolher o que funciona para você, ou compreender quando situações que fogem do controle surgirem, que o que determina o mundo é o seu ponto de vista.

Eu me basto. Com vinte e dois anos de idade aprendi que não preciso do seu pai, de um diploma, de um trabalho perfeito ou de uma casa bonita. Eu escolhi estar na família que estou. Eu escolhi te ter e cultivar o maior amor do mundo. Eu escolhi esperar até me sentir preparada para estudar aquilo que sei que vou ser feliz fazendo. Eu escolhi fazer as escolhas de acordo com aquilo que sou.

E eu também entendo que tal escolha é um privilégio, não impondo ou acreditando que toda mulher parte da mesma vivência ou situação. Aprendi a escolher compreender todas essas camadas.

E Helena, faça isso. Se ame mais do que eu um dia irei te amar. Me diga não, me chame para conversar por horas sobre os seus sonhos, me conte as razões que te levam a sorrir. Sorria por coisas simples e jamais, jamais ame em vão. Não ame por status, por bens ou por pessoas. Ame porque você tem tanto disso dentro de si que transbordou e virou uma flecha que atingiu alguém.

Ame meninos, meninas, flores, árvores, o moço sentado no último banco do ônibus ou a garotinha que está brincando no parque com a mãe. Ame o brilho nos olhos de alguém e a luta diária de pessoas que ainda sonham com uma vida melhor. E se você encontrar alguém que vá te fazer feliz todos os dias da sua vida ou uma semana dela, sorria. Isso é muito mais do que se pode esperar de dias chuvosos e do calor do verão.

Com amor,
Mamãe.

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18 comentários sobre “Helena, não ame em vão

  1. Devo me direcionar a Helena ou a vc, mamãe da Helena?
    Vi alguns trechos se reportarem como parte de minha história. Espero o João Ricardo, e fiz algumas escolhas que fogem do padrão. Eu simplesmente resolvi viver, ser feliz. Isso pareceu estranho, louco, fora do padrão aos olhos de muita gente. Pareço insana escolher ser feliz. Eu me basto. Não preciso de muletas, de apoios, de alguém que preencha a minha vida e o meu tempo para que as coisas corram bem. Precisamos de Deus. E só. O resto Ele complementa de acordo com nossas necessidades.

  2. Obrigada por esta carta. Ela não é para mim, Helena não é o meu nome, mas obrigada por esta carta. Ela fez por mim muito mais do que eu consigo escrever aqui. Abraços de alguém que não conhece você e nem a pequena, e sortuda, Helena. Um beijo nas duas. ❤

  3. Helena querida, não nos conhecemos pessoalmente, mas dê-me a liberdade em dizer-lhe do laço afetivo “tia e sobrinha” que sinto haver entre nós. Eu realmente tenho muito carinho por você, e sempre me pego emocionada com as cartas que a sua mãe escreve para você. Você é uma pessoa de sorte, Helena. Se todas as crianças do mundo pudessem ter uma mãe sensível, um pai compreensivo e pais incentivadores como os seus, com certeza viveríamos tempos de paz e construiríamos um futuro de ordem e progresso. Seja agradecida, sinta-se feliz.

    Assumo que eu também devo ser agradecida e muito feliz. Afinal, nasci em um lar estruturado, em uma família não tão convencional, porém que sempre se fez e faz presente, que como qualquer outra família, enfrenta dias de lutas e dias de glória, que com todas suas imperfeições e dificuldades, no final tudo sempre acaba em pizza, refrigerante, brigadeiro, pipoca, Harry Poter ou Tim Tim, com todos reunidos na sala, amontoados em um ou dois sofás, quando temos seis em casa. – Ainda pretendo escrever uma outra carta para você, contando a minha história e a da minha família.

    Estamos falando de família, de convencionalismo, de tradição e de dependência afetiva, emocional, financeira e protecional, no qual sempre fomos condicionados – e muitos convencidos – de que todo homem necessita do zelo de uma mulher e toda mulher da proteção de um homem, ambos se apaixonam, se casam e procriam, constituindo assim uma nova família.

    Creio que a sua mãe já abordou em outra carta, o tema família e suas diversas constituições, onde família pode ser papai, mamãe e filhos; mamãe, mamãe e filhos; papai, papai e filhos; mamãe e filhos; papai e filhos; mamãe, vovô, vovó e filhos; papai, vovô, vovó e filhos; vovô, vovó e netos; entre outras mil e umas diversas formações, o que importa é haver amor e respeito, pois onde há amor e respeito, há uma família, disposta a enfrentar e escrever uma história, independente de laços consanguíneos-biológicos ou afetivos.

    Pois bem, devo lhe mencionar, que tenho 23 anos, sou solteira, sem filhos, formada em Direito, com muitas dúvidas e incertezas, em busca do crescimento e reconhecimento profissional, sonhadora e motivadora.

    (…) Sabe Helena, desde muito cedo, eu sempre sonhei com a maternidade, em poder dividir meus conhecimentos e experiências com um ser que eu amarei de forma imensurável, incansável, inesgotável, inexplicavelmente. Acredito que a maternidade irá me realizar como mulher, pessoa e profissional, pois como disse há pouco, este sempre fora e é o meu maior sonho.

    Agora, perceba, logo acima eu me descrevi como solteira e que sonha em ser mãe, porém, em momento algum mencionei que para tal, eu preciso de um companheiro-protetor, de um macho alfa.

    Muitas vezes, por ser/estar solteira na minha idade, sou confundida com ser lésbica, visto que sou festeira e normalmente estou rodeada de muitos amigos, sendo na maioria deles, homens. Eu nunca tive um relacionamento homossexual, entretanto ainda não encontrei um homem, com quem eu possa estabelecer uma relação de parceria para que juntos possamos formar uma nova família.

    Assumo que eu gostaria e desejo muito que o meu filho possa ter um pai tão carinhoso e presente, assim como o meu fora e é para mim… Entretanto, se eu perceber que cheguei em uma determinada idade, que estou preparada para a maternidade, todavia ainda não encontrei um parceiro para dividir comigo essa experiência… Óbvio que eu serei corajosa o suficiente para realizar o meu sonho da maternidade, mesmo que de forma independente, ou seja, se necessário, eu serei sim mãe solteira. Assim como, acredito ser possível, homens poderem realizar o sonho da paternidade, sem que necessariamente tenham ao seu lado uma companheira ou que sejam gays, podendo eles também, serem pais solteiros e heterossexuais.

    Atente-se, pois para finalizar, resumo e ressalvo em 03 pontos tudo o que a sua mãe já lhe disse em cartas e eu venho tentando dizer-lhe nesta:

    · Um casamento, não deve ser uma prisão. Muito ao contrário. E como diz um conhecido meu (Amadeu Gomes Jr): “… Nossos relacionamentos são baseados puramente no equilíbrio das ações e reações. Se preocupar sem sufocar, dar espaço sem ser ausente e deixar saudade mas estar presente.”;

    · Para ser mãe, você não precisa necessariamente, ter um pai para o seu filho. Você pode ser sim mãe solteira, assim como também, um homem pode ser pai solteiro ;

    · Independentemente de sexos e do sexo, ame pessoas e faça sempre amor.

    Enfim, era isso o que eu queria dividir contigo nesta minha primeira carta. Seja amor, seja autentica, seja corajosa e seja feliz.

    Com amor,

    Tia Lauren.

    Ps: Paola, sinta-se a vontade para corrigir os meus erros gramaticais.

    Ps II: Você é incrível. Quanta sensibilidade e amor. Parabéns! J

    Descrição: cid:image003.jpg@01CFBB8E.0B859E10

  4. Oi, Paola!
    Acabei de conhecer o seu blog, com cartas para sua pequena, e pensei: que grata surpresa! Feliz de tê-la encontrado pela blogosfera, e fiquei bastante emocionada com suas palavras. É isso! Somos muito mais do que dizem que somos, podemos muito mais e, quando a gente se dá conta disso, experimenta a felicidade. E isso nada tem a ver com seguir padrões. Ainda bem! =)
    Beijos e beijos,
    Lidi

  5. Helena, você tem uma das melhores mães do mundo, espero que você cresça a menina mais linda e feliz que você possa ser. E Paola, obrigada por iluminar meu dia com mais um texto lindo e cheio de sensibilidade, sempre fico bem e com um pouco mais de esperança quando leio suas cartas ❤

  6. É a primeira vez que venho aqui… e já me apaixonei!
    Helena, você tem sorte!!! Muita!
    Precisamos mesmo de pessoas mais felizes e se amando mais. Amei de verdade esta carta, tanto que compartilhei na minha timeline e também vou citar no meu blog. Porque, de verdade, quero que minha filha leia um dia e saiba por que eu me preocupei tanto com ela, em fazê-la feliz, muito antes de prepará-la para a vida convencional a quela estamos acostumadas.
    Lindo texto. Lindas palavras que tocam profundamente nossas almas. Temos que começar por nós mesmos, mães e pais, a mudar o mundo com nossos filhos, com amor, carinho, presença, paciência, diálogo e compreensão.
    Beijos imensos!

  7. Deve ser impossível uma moça de 22 anos ser mãe de alguém que já tenha 18, mas é assim que eu me sinto a cada carta escrita para a Helena. Sensação de ser pega no colo e ensinada novamente tudo aquilo que eu já aprendi, não
    que alguém tenha me ensinado, mas a cada palavra tua Paola é como se fosse para mim uma grande novidade.
    Obrigada!

  8. Sabe que Helena ,foi um nome que eu adotei para mim meu nome Rosilene .meu apelido Lena
    mas um dia tive que escolher um nome para trabalhar em uma Empresa pois os nomes se repetiam então acabei adotando também Helena nos vários poemas que escrevo ,sabe penso exatamente assim e tudo que disse para sua filha faz parte também das intenções do meu livro ,cujo alguns poemas se encontram em minha página ,A Menina No Armário parabéns por suas lindas palavras para Helena

    • segue ,meu pequeno poema para sua filha Helena

      Helena

      A vida me desenhou
      não de forma intocável
      Mas me desenhou ,para que eu fosse Helena do jeito que sou…
      Para que eu amasse e vivesse o melhor dos meus sonhos
      A Vida me ensinou me mostrou o caminho entre as pedras
      Sublinhou meus sonhos em doces nuvens de algodão mesmo na mais dura realidade
      Mesmo assim ela me desenhou
      Para que eu fosse Simplesmente Helena….

      08/11/2012
      Rosilene

  9. Nossa, estou realmente tocada por seu blog. Para minha dissertação, recuperei cartas que a mais antiga data 13.04.1999, me emocionei com todas, fico imaginando a Helena quando tiver consciência de mundo, a potência que esses escritos causará.

    Já pensou em transcrevê-los à mão em forma de diário?

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