Mão e Coração

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Carta escrita no dia 29 de outubro de 2014, numa noite feliz.

Helena,

Alguns dias são imensamente piores que outros, essa é a realidade das lembranças ruins. E ontem, enquanto lavava a louça, me lembrei de algo que aconteceu numa época dessa do ano, só que já faz onze anos. Naquele dia minha madrasta não sabia, mas ela estava destruindo um pouco mais de uma criança e me ajudando a ser o que sou hoje.

A verdade é que eles nunca sabem o que fazem. Faz parte do pacote.

Acontece que sempre fui uma pessoa absurdamente ansiosa, num nível realmente preocupante, o que me fez durante toda a vida roer as unhas, querida. Um péssimo hábito, mas nunca consegui ser mais forte com ele e tem sido assim desde que me lembro por gente. E quando era uma criança de onze anos na casa do pai com a nova família desconhecida, a ansiedade não era novidade.

E minha madrasta odiava isso. Por algum motivo, o ato de roer unhas era uma afronta pessoal a ela, assim como qualquer coisa. Não lembro exatamente qual foi a grande causa, mas um dia ela enfiou minha mão num pote de pimenta e me mandou para a escola com a mão assim. Estava proibida de lavar a mão durante a escola, devia voltar como fui..

Infelizmente, roer unhas causa uma série de feridas nos dedos, de peles que vão se soltando, da unha roída demais e isso com caldo de pimenta extra forte só pode causar uma coisa: dor. Essa dor, com a humilhação de ter que ir para a escola com todos sabendo o que ela me fez, causou ódio. Naquele dia eu senti tanto ódio que não dormi. Não chorei. Não lamentei injustiça ou dor. Só consegui me sentir inundada daquele sentimento.

O tempo passou e o ódio também, mas os pesadelos vieram. Até hoje tem dias que acordo apavorada, com a mão queimando e sentindo cheiro de pimenta. E o mais inquietante, Helena, não é a dor, a humilhação ou o ódio, é que eu nunca vou conseguir explicar porque ela fez isso. Ela não iria me fazer parar de roer unhas, ela não ganharia nada com aquilo. Durante anos me perguntei: mas porque ela fez isso?

Até que cheguei a conclusão que essa resposta não importa. Tudo de horrível que vivi até hoje, que me foi causado por violência, abusos e raiva, nunca teve explicação. Não existe motivo que justifique atos assim. E também não existe consolo na busca de respostas. Saber porque alguém te fez algo de ruim geralmente não vai melhorar como você se sente, mas conviver com suas lembranças e se aceitar com elas, pode causar milagres.

E em algum momento dos últimos onze anos eu decidi que iria mudar o mundo. Nada grandioso, nem muito arrogante. Mas eu não conseguiria dormir as poucas horas que durmo sem ter uma meta. E como os fantasmas são enormes, a missão deve ser tão grande quanto.

Eu espero, querida, que você jamais tenha que viver nada remotamente semelhante ao que vivi e vi. Como mãe, o maior pesadelos de todos da minha vida é saber que você sofre, mas eu sei que não vou conseguir te proteger de tudo, apenas não dá. Você terá sua cota de pesadelos até o final da vida e eu só posso ajudar para que você tenha mais sonhos realizados que isso.

Mas quando acontecer de algo ruim atravessar sua vida, saiba que todas as pessoas tem uma história ruim. No singular e no plural. E isso não é um consolo, mas veja bem, todos tem isso e ainda existem pessoas que sorriem e fazem sorrir. Que amam e espalham amor. Ainda existe esperança enquanto existir pessoas escondidas nas esquinas da vida para te dar a mão, desejar um bom dia ou te abraçar após um dia exaustivo. Enquanto você existir na sua história, sempre vai ter escapatória. Nada é insolúvel. Não existe absolutamente nada que não valha a pena.

Transforme dor em mudança. Eu me prometi que jamais iria ver alguém sofrer o que eu sofri, pelos mesmos motivos. Prometi que tentaria mudar o mundo, não porque quero meu nome estampado em algum lugar, mas porque se todo mundo desejar mudar o mundo, é capaz que ele realmente mude.

E minha mão continua com os dedos machucados, o coração continua meio dolorido, mas a realidade nunca mais foi a mesma.

Com amor,
Mamãe.

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