Entre chegadas e partidas

bannerpalidoCarta escrita no dia 15 de novembro de 2014.

Helena,

Tenho certeza absoluta que o motivo de tentar estudar ao máximo ciência e história foi algo muito mais antigo do que podia perceber até hoje. Lembro que quando mais nova, lia enciclopédias e livros que explicavam civilizações e instinto como se aquilo fosse me dar a resposta da minha vida. Felizmente, isso não aconteceu.

Mas existe um livro do Carl Sagan – e por favor, leia esse homem – que se chama Um Pálido ponto azul, que traçou minha vida entre antes e depois.

Nesse livro ele fala sobre uma imagem da Terra tirada pela sonda de exploração Voyager 1, que tendo explorado nosso sistema solar, foi enviado seu último comando, que era nada mais nada menos que olhar para trás e tirar uma foto de todos os planetas que havia visitado. A imagem da Terra foi tirada a 6,4 bilhões de quilômetros de distância e mostra um minúsculo ponto azul, pálido, insignificante.

E ali mora tudo que amamos.

Mora as pessoas por quem choramos, o corpo de nossos antepassados, a destruição que plantamos para nosso futuro. Tudo pelo o qual morremos e vivemos num pequeno ponto insignificante no meio de uma imensidão pouco explorada.

Aquilo me fez pensar por tudo que havia chorado, tudo que havia existido em mim até então e lembrei com muita exatidão da primeira partida da minha vida: meu pai. Não sei te falar o dia que meu pai partiu, mas ele se foi aos poucos, até estar lá e não mais existir.

Ele foi o herói, era o pilar da minha vida, colocando minha mãe como uma mera coadjuvante de sua própria cria. Na minha infância, sempre soube que podia chamar meu pai e teria alguém intervindo por mim, e num preciso momento indizível, eu poderia gritar e saberia que ele não iria me ouvir. Toda uma criação não só machista, mas completamente ilusória, se partia na minha frente.

Foi como perder o chão. Passei um bom tempo da minha adolescência com a sensação que estava perdida, porque não sabia mais para quem podia pedir ajuda, já que minha mãe estava constantemente em crise por motivos muito parecidos e meu pai havia ido embora. A solidão que senti foi tão completamente ignorada, porque era adolescente e nessa fase tudo é passageiro para os adultos conhecedores da verdade. Solidão pode ser  palpável, Helena.

Quando vi aquele pequeno ponto azul, tão imensurável em importância, mas ao mesmo tempo tão insignificante, não consegui não relacionar isso aos sentimentos vividos por nós aqui no nosso ponto pálido. Estamos tão apegados a tudo que as chegadas mal são comemoradas e as partidas são lacerantes.

No fundo, dentro do pálido ponto azul, existe outros tantos pontos, com suas vivências únicas, insignificantes pelo volume, mas singulares em existência, todos unidos pela solidão de existir como individuo numa fila de bilhões de olhares que buscam respostas.

Com amor,
Mamãe.

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