Sobre ser mãe… Ou sobre como sua mãe me ensinou a ser mãe

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Enviado via email e autorizado pela autora para a publicação.

Carta escrita no dia 01/de janeiro de 2015, em meio a lagrimas e abraço

Helena,

Eu espero que um dia nós tenhamos a oportunidade de nos conhecer. Eu acompanho seu crescimento de longe, desde quando você ainda estava no aconchego do útero da sua mãe.

Eu passei meses pensando em escrever algo que seja útil para você, mas nada me parecia certo. Eu sou filha, sua mãe foi e é filha e você é. Então somos programadas para não entender o que existe dentro das mães, e eu e sua mãe sabemos bem o quanto dano isso pode causar. Mas não se assuste. Isso é normal.

Vou te contar sobre um lado que talvez você desconheça da sua mãe e de como muito tempo depois ela fez a diferença na minha vida. Duas vezes.

Há exatamente um ano atrás eu estava envolta em um caos. Eu havia acabado de descobrir um diagnóstico de câncer, minha irmãzinha internada e eu sentia na minha pele o peso de se ter tudo que eu acreditava desfiar como um casaco velho de lã. Era por volta das duas da manhã, eu  estava chorando, envolta em desespero com o notebook ligado por motivo algum. Sua mãe veio falar comigo. Não éramos íntimas, mas por algum motivo nossas linhas se cruzaram. Dividimos as minhas dores, ela contou sobre as delas. Talvez ela não saiba, mas quando acabamos a conversa eu estava leve. E mudei radicalmente minha vida a partir daquela conversa. Eu ainda não entendia alguns dos traumas dela. Mas sempre que algo me fazia passar perto da porta do desespero eu lembrava de suas palavras.

O nome disso é compaixão, Helena. E não importa quanto você ganhe , ou como você vive. Esse é um dos princípios mais  importantes da vida de qualquer um.

E acontece que mesmo com a condição debilitada de saúde eu sempre quis ser mãe e no começo de novembro eu descobri que estava grávida. Eu descobri a gravidez como quem tem um palpite. Eu estava no meio de um dia de trabalho cheio, com ataques de bandidos contra a policia na cidade inteira e enchente em vários pontos. Foi quase impossível chegar ao hospital.

Essa criança ia vir a ser descoberta no meio do caos.  Logo a felicidade deu lugar ao medo e os médicos só diziam que ia ser uma gravidez de alto risco. Eu tinha dores insuportáveis e estava depois de uns dias começando a definhar.
Perdi as contas de quantas vezes fui a médicos e das dúzias de remédio que tomei. Fui tomada pelo medo e pela esperança. Eu era mãe. E com isso vem toda a culpa imposta pela sociedade porque gravidez não combina com mulheres bem sucedidas. O dinheiro que nunca seria suficiente, o corpo que não respondia mais como antes e simplesmente me senti sozinha. Eu tinha meu noivo ao meu lado, e ninguém mais para entender minhas dores e meus medos.
O tempo passou, as dores diminuíram e eu tive uma centelha de esperança.

No dia 30 de dezembro eu estava trabalhando normalmente quando uma dor me acertou e me tirou o ar. O restante é só um borrão de sangue e dor. Eu presenciei a perda e a primeira coisa que me veio na mente naquela hora foi sua mãe.
Eu me perguntava como a Paola havia passado por aquilo e o que fazer com essa parte que havia sido tirada de mim sem eu querer.

Eu tenho memória fotográfica. Me lembro com detalhes de quase tudo na vida, e eu te garanto Helena, eu queria não ter.
Foi naquele momento que eu entendi o real significado de ser mãe. Esse sentimento irracional que vem embutido no pacote e que não temos o menor controle. Ali, naquela fração de segundos eu entendi, o significado de todos os choros incontroláveis e de todos os medos irracionais.

Porque ser mãe é isso Helena, é passar o resto da vida brigando com o lado emocional e racional e torcer que tudo dê certo.

Eu fui mãe por 63 dias Helena. E sempre serei mãe, apesar de não segurar meu filho no colo, ou passar as noites acordadas.

E o que eu quero te dizer? É que às vezes você pode não entender os motivos da sua mãe, mas tem algo dentro dela que não tem nome, e que explica muita coisa. Apesar de não justificar os erros, porque errar é natural para nossa espécie. E, querida, você só entenderá isso plenamente quando amar alguém de forma incondicional, sem nenhum tipo de reserva ou restrição.

Enquanto isso, eu acompanho de longe seu crescimento e te desejo apenas uma coisa: força, pequena. Esse mundo é cruel e não podemos proteger nossas crias da dor de todo o aprendizado. E que você ame, incondicionalmente, porque o amor vale sim a pena.

Eu posso nunca ter te pego no colo, sentido seu cheiro ou visto você. Mas acredite, eu te amo.

Com amor.

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