Feche os olhos e pule

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Fotografia: Elizabeth Gadd

Carta escrita no dia 31 de dezembro de 2014. 

Helena,

Pense no melhor dia da sua vida. Pare sua leitura. Relembre sua melhor memória do inicio ao fim. Reviva o sentimento, as percepções, o seus sonhos naquele momento, quem você era naquele instante.

Do primeiro segundo da sua melhor memória até o leve tremeluzir do sorriso que se foi não estava no seu controle. Por mais que você tenha planejado algo naquele dia, nada que aconteceu foi controlado por você. Poderia ter caído um meteoro ou seu telefone tocado e você teria que ir embora de forma abrupta. Tudo que aconteceu no melhor dia da sua vida poderia não ter acontecido. Acaso. Destino. Não importa o nome que você dê, aquilo só aconteceu por motivos desconhecidos.

O mesmo vale para o pior dia, para o ontem, o hoje e os próximos 100 anos da humanidade. Por mais que tentemos planejar, articular,  projetar, listar e cronometrar, tudo está alinhado num caos silencioso. Assim como o Tempo é uma malha que nos une e move de forma misteriosa, liderando toda a existência, os acontecimentos nele espalhados está fora do nosso poder.

Digo isso porque toda a minha vida me perguntei porque as coisas que me aconteceram, afinal, aconteceram. Porque me fizeram o que fizeram? Passei pelo sentimento de revolta, raiva, culpa e medo. Imaginava na cama realidades diferentes, sonhava com minha vida aos 20 anos. Mentia para mim e para outros sobre quem era e quem iria ser. Neguei a existência de tudo, principalmente a minha.

E cheguei na conclusão que não existe explicação que melhore a dor, que remova por completo as lembranças. Posso saber os motivos, compreender a razão, conhecer profundamente o que leva alguém a causar dano a outro ser, mas isso não muda a variável de que aquilo podia apenas não ter acontecido. Coisas boas e coisas ruins acontecem por motivos misteriosos e só nos resta juntar o que nos sustenta e caminhar, querida.

Causamos danos e danos também nos são causados.

E fui perceber isso depois de 22 anos, enquanto lavava louça, ouvia uma boa música e tinha uma carne ao forno para receber amigos. Era o último dia do ano de 2014 e me vi quando tinha 12 anos, assustada, deitada numa cama de ferro branca, sem sono, com as mãos cheirando a pimenta e latejando dos machucados, chorando por viver aquela vida, imaginando como seria uma advogada de sucesso, com um apartamento no 5º andar de algum lugar, com um namorado bonito, tendo escrito três livros e longe de toda aquela merda. E sabe? Não cheguei nem perto disso e sou completamente feliz. Jamais imaginei a vida que tenho porque dificilmente temos uma noção boa de felicidade quando projetamos nosso futuro em uma mera ilusão que nos vendem em filmes e revistas.

Estou constantemente cansada, cheia de trabalho, com horas de sono atrasada. As vezes grito, perco a paciência com mais frequência do que gostaria, queimo arroz três vezes por semana. E sim, tem dias que durmo sem tomar banho, porque ninguém me contou que jamais deveria deixar isso por último em dias caóticos. Meu casamento não é perfeito, minha vida não é planejada, não tenho metade das coisas que gostaria, mas tenho absolutamente tudo que preciso para ser feliz.

Me sinto sozinha com uma constância dolorosa, mas esse já se tornou meu mecanismo de restruturar meus muros quando eles começam a ruir. E todo dia, em doses extremas, fecho os olhos e pulo.

A primeira vez que fiz isso com tranquilidade foi quando você nasceu. Apenas vi aquele bebê tentando comer o próprio cobertor e soube que ali começava o desconhecido. O duro desafio de criar outro ser humano sendo humana, falha e cheia de questões. Durante meses me apeguei na sensação de controle, tentando manter tudo numa ordem confortável até me tornar prisioneira das minhas próprias amarras. E elas já eram velhas amigas, desde quando percebi que teria que cuidar de mim mesma, sozinha.

Helena, destrua suas amarras. Não controle nada. Não tente ordenar, alinhar e podar aquilo que não depende de você. Faça o seu melhor. Ame de forma insana e sonhe com círculos, linhas paralelas e pequenos pedaços de nuvem, mas não cometa meus erros em tentar encontrar explicação nas falhas, nos sorrisos e nas lágrimas. Coisas boas e ruins acontecem todos os dias com pessoas merecedoras ou não. Injustiças azeitonam nossa realidade e a beleza da gentileza sempre está disponível para aqueles que querem ver.

Sempre que surgir a oportunidade: feche os olhos e pule. O mais alto. O mais profundo e libertador.
Respire.
Abras os olhos e me ouça dizer hoje e para sempre: a razão de viver é sentir.

Com amor,
Mamãe.

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2 comentários sobre “Feche os olhos e pule

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