Sobre nós

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Carta escrita no dia 20 de junho de 2016.

Helena,

Foi com oito anos que percebi que havia algo errado. Talvez tenha acontecido antes, mas foi na cozinha da casa onde fui criada, numa manhã, que a consciência veio. O terrível e implacável cair da ficha que meu grito não estava sendo escutado. Que meu pedido de ajuda estava fugindo pelas imensas paredes erguidas entre as pessoas da minha vida.

Foi muito cedo que senti a primeira dor de notar como era insignificante ali, naquele espaço. Queria ser pessoa, mas não conseguia. Queria dizer que sentia medo, mas só sabia me encolher. E essa paralisia, esse grande desespero no fundo da garganta, o conhecimento dele mudou tudo.

Uma vez li em algum lugar que o conhecimento sempre irá te expulsar de algum paraíso. O conhecimento de algum abuso, abandono ou terror me parece o tipo de bater da porta sem volta. Você sempre vai esperar o pior, o medo de cair vai sempre correr atrás dos seus passos.

O maior desafio de ser sua mãe não é toda a rotina de ter uma criança pequena, muito trabalho e uma casa para cuidar, é continuar caminhando. É manter a esperança que o mundo não irá te partir, quebrar em caquinhos tão insuportáveis de superar.

Não vou poder te esconder e isolar, e cada dia mais sinto pavor. Me sinto mais atada, porque fazer o meu melhor por você não anula o fato de que alguém, que o mundo, não está fazendo o melhor por outra criança, e um dia essa criança será um adulto. Um dia esse adulto pode estar atrás de você numa rua escura, pode ser o amigo do seu amigo, pode ser tantas opções sobre o caminho que o terror de alguém pode transforma-se nos seus pesadelos.

Lembro tão nitidamente de quando meu irmão saia para as festas e minha mãe sentava na mesa da cozinha, fumava vários cigarros e olhava o chão. Ela sabia de algo que hoje sei. E todo dia queria não saber.

Faz alguns dias que entrei em uma delegacia para denunciar um crime. Sentei ali por três horas e vi uma dezena de pessoas entrarem. Crianças com o olhar já sem vida, mulheres exaustas e machucadas. Em cada olhar vi um pouco do que morria ali, naquela pessoa sentada num banco gelado de concreto. Alguém que habitava meu corpo.

Nós meio que excluímos automaticamente os problemas do mundo da nossa vida. Talvez seja a única forma de acordar todo dia, talvez seja a única forma de encarar o sistema. Perceber que os problemas das pessoas, da comunidade que você vive, também é seu, que as dores de alguém vai bater na sua porta, causa medo.

Porque não é sobre eu e você, sua família, meus amigos, é sobre nós.

Não é apenas um criminoso, mas todo o sistema que transforma aquilo em algo que possa acontecer. É os olhos que se fecham, os conhecidos que ignoram, é como coisas terríveis nascem em lugares desconhecidos com o aval de alguém maior, com mais poder. É sobre uma cultura.

Vai ser difícil encarar isso, querida. Mas você precisa encarar. Precisa estudar, observar, entender. É um longo processo que envolve perder muita gente no caminho. Entre abandonos e abandonados, vai restar mais dúvidas, mais questões. É um ciclo que não tem fim, porque os problemas que estamos inseridas não tem fim.

Mas lembra, quando fraquejar, não é sobre você. É sobre nós.

Tome o tempo. Respire. Descansa. Aos poucos você vai descobrir a melhor forma de fazer isso sem perder o que é necessário para continuar, e então continue.

Quando a noite for muito escura, a realidade muito dura, você sempre pode voltar para onde tudo começou e restaurar a força. Pode tirar um dia para olhar quadros, livros, crianças sorrindo e o resultado de tanta luta.

Você pode ler essa carta muito melancólica e lembrar que do ponto onde você está, sua mãe, eu, também estou tentando manter as pernas sem cair. Por uma linha de tempo, uma distância de geração, nós duas travamos a mesma luta de pontos diferentes.

Não por sangue, não apenas por laços afetivos, nós seguimos juntas, porque juntas é a única forma de seguir.

Com amor,
Mamãe.

 

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