Sobre montanhas e a sua mãe

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Carta escrita no dia 2 de fevereiro de 2017.

Helena,

Faz um longo tempo desde que estive aqui.

Já escrevi nesse blog em madrugadas onde você dormia ainda bebê num berço montável, num quarto no terceiro andar do restaurante de uma cidade de seis mil habitantes. E depois escrevi de uma casa tão cheia de umidade quanto de infelicidade. Passamos também por um lugar enorme, cheio de sonhos, no meio da natureza, onde por um segundo acreditei que se o lugar fosse perfeito, tudo também seria. Mas não, meu castelo de fantasias desmorou com a mesma rapidez da percepção que não fazíamos a mínima ideia do que fazer.

Voltamos para minha terra natal, e escrevi de uma casa num bairro afastado. Te contei sobre o fim. Te contei sobre a mudança.

Chegamos em São Paulo com a esperança de encontrar algo que não sabia o que, mas encontramos a dura realidade: eu não estava preparada. Agora, com tantos meses, dias e horas passados colhendo os frutos dos meus erros, é necessário voltar para te falar sobre onde escrevo agora: estou numa sala, com dois gatos que não são meus, com o barulho de uma fonte de água e o vento levando a chuva para longe. Você mora com seu pai.

Todo dia eu acordo, olho para o lado, respiro fundo, você não está aqui. Agora você mora com seu pai. Você mora num lugar onde não precisa ficar tantas horas na escola. Nem tantas horas me vendo trabalhar para conseguir pagar tudo. Você está num lugar onde não vê.

Você continua protegida do jeito que juramos um dia manter. Não importa com quem, você sempre estaria bem.

E aceitar que você está bem agora com ele tem me feito vagar por essa casa, sozinha. Me faz entender e questionar ainda mais o peso que levo aqui no peito. Mais que o peso da saudade, a angústia de não te colocar para dormir todos os dias, de sentir que você está crescendo e eu estou companhando por vídeos, é entender que eu sou a mãe.

Ser a mãe me coloca numa posição onde a responsabilidade por você sempre será unicamente minha para o mundo. Se um dia você escolher algo que dizem ser errado, a culpa será minha. Você irá me culpar um dia por escolhas que fiz tentando meu melhor. Essa culpa que me é tão dura tirar do peito para finalmente conseguir dormir nunca irá sumir. Não é minha decisão ela estar aqui, a sociedade decidiu por nós.

Não importa se aos vinte quatro anos eu tenho lidar com mais peso e responsabilidade que grande parte das pessoas carregam em si, a verdade é que escolhendo ou não, isso é meu. As contas são minhas, as dores, os medos, a angústia, a saudade. Aquela menina que sentava na beira da rua e olhava as montanhas jamais iria imaginar o peso de algumas pedras daquela construção natural.

Eu tentei exaustivamente encontrar respostas nos últimos anos, Helena. Não tive referência, não houve amor e carinho, proteção e zelo. Nunca houve nada disso para que pudesse ter uma base. Sempre encontrei o desespero de tentar não repetir o que meus país fizeram caminhando para exatamente a mesma coisa.

Briguei por nós por medo. Me escondi e fiz coisas na hora do desespero. Teve dias que precisei de um colo que nunca veio, e ali, ouvindo você respirar durante o sono, chorei. Me aninhei na única coisa que tinha: você.

Me venderam a ideia de que se eu batesse de volta muito forte, eles teriam medo e se manteriam longe. E a verdade é que nada nunca se mantém longe, os horrores sempre vão nos encontrar. As ações dos desconhecidos e das pessoas que nos juraram amar sempre vão nos encontrar e o segredo não é ser rigído e retornar o mais forte possível. Isso é se machucar duas vezes.

Eu não estou trabalhando no que me faz feliz, mas ele paga sua escola, meu aluguel, as viagens para te ver, nossos momentos felizes. Não estou minimamente descansada, acho que todo dia sinto que posso ficar por horas igual uma estátua, mas acho que as coisas estão dando certo. Todo dia acordo no mesmo horário, faço as mesmas coisas, volto para a mesma casa, calculo os mesmos números, sinto o mesmo desânimo. E essa ideia de sucesso e felicidade que me venderam foi ruindo aos poucos.

O segredo que descobri nos últimos tempos é a fórmula mais antiga do mundo mas que nós jovens tanto ignoramos.

Paciência.

Paciência que vai doer menos. Paciência que seus planos vão sair do papel. Paciência que a culpa não é sua. Paciência, esse é o seu melhor.

A gentileza que tive que aprender e oferecer aos danos que chegaram entrando sem bater, também tive que aprender a ter aqui dentro, com o reflexo do espelho.

Tive que falar em voz alta que eu nem sempre serei suficiente para você. Que o meu melhor nem sempre será o melhor para você. Tive que fazer inúmeras viagens para te buscar e sorrir ao te pegar, porque esse sorriso é o preço para que você tenha uma vida tranquila.

Tive que aprender a acordar todo dia, olhar as coisas e respirar fundo: vai melhorar. Agora não está bom, mas está caminhando. E quando me perguntam como estou? Comecei a sinceramente a responder que estou bem.

Não porque tudo está perfeito, mas porque aprendi a lidar melhor com os problemas, as dores, os medos e tudo certamente ficará bem. E assim aprendi a confiar mais em mim.

Parece estranho, né? No meio de tudo isso estou virando a adulta que nunca tive a oportunidade de ser. Aprendi a entender que esse sucesso que vendem por aí é só mais um produto que precisa ser vendido e como todo produto: ele deve ser consumido.

Nos fazem procurar desesperamente a felicidade quando ela é só um ponto de vista. É um estado não adquirido por fundos e meios. Ela não é plena e eterna. Ela é um momento.

É só sobre ir no ponto certo daquela montanha e olhar. Se você olhar para cima verá tudo aquilo que ainda não consegiu caminhar, mas se olhar para baixo vai ver que conseguiu passar por muitas coisas e isso é um grande sucesso. Talvez isso te faça pegar outros caminhos para continuar a subida. Te faça aproveitar mais isso, e quem sabe até parar naquele riacho no meio do caminho. Talvez o topo já nem seja mais o que deve ser alcançado.

E todo dia eu levanto, olho o sol entrando pela janela, tomo banho, café, vejo sua foto, respiro fundo e saio. Tem dias que chego muito tarde e exausta, tem dias que chego e consigo ver um filme. Tem dias que fico em silêncio me sentindo a pior mãe do mundo. Tem dias que entendo as escolhas que tive que tomar.

Todos os dias faço o caminho imaginando realidades alternativas onde eu trabalho com o que amo, você está aqui, nós temos uma casa linda e não existe trânsito. Não é real, mas é o que me mantém caminhando. Nessa idade descobri que é necessário voltar a ter algo que perdemos na infância: perseverança e imaginação.

É continuar. Apenas continuar tentando, continuar encontrando soluções, continuar fazendo as coisas se encaixarem. Continuar imaginando formatos até então não pensados mas que servem muito bem naquele lugar. Quando pesar: parar, respirar e continuar. E com o pé no chão e a mente tentando estar no melhor ponto de vista da montanha, a realidade dura ganha contornos gentis. E a saudade ganha um sabor menos amargo. E o medo fica recluso e a solidão não chega perto porque nesse momento estou caminhando mais rápido que ela.

E na verdade, o que seria a solidão que uma boa companheira não é mesmo?

E quando chegar sua hora, querida. Quando você sentir essa coisa da vida adulta, não terei mágica, só a melhor coisa que posso te ensinar: perspectiva.

O lento respirar fundo e entender sobre a culpa que te pertence porque te colocaram. A compreenção das lágrimas que precisamos derramar. O abraço da realidade que pode ser moldada com nosso jeitinho mágico de fazer o melhor para quem amamos.

Gentileza nem sempre gera gentiliza.
Gentileza vai te fazer continuar vivendo porque ela gera a única coisa que importa: caminhar com o mínimo de paz que podemos encontrar no fundo do peito.

Com amor,
Mamãe.

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2 comentários sobre “Sobre montanhas e a sua mãe

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