A menina do outro lado da porta

São Paulo, 28 de abril de 2017. (Faz frio pra caramba aqui)

Helena,

As coisas estão bem por aqui. Não sei, mas acho que nunca escrevi isso em nenhuma carta: as coisas estão bem. E se escrevi, acho que não foi muito sincero, era mais aquele “pera aí, estou sendo muito negativa”, mas é importante abraçar essas coisas negativas para falar que Ok, tudo bem não estar ok – e assim, quem sabe, aprender a descobrir que grandes desgraças podem ser infinitamente engraçadas. Né?

Esses dias percebi que esse começo, o caminho em que você é meio imaturo e não entende muito bem das coisas, mas precisa fingir ou aprender como o jogo funciona rápido, e acaba se enfiando em situações onde faz mais dívidas do que dá conta, aumenta uma história para se sentir melhor, diminuí outras para não pensar que tudo pode ser tão ruim e no fim, sabe, dá tudo errado? Esse começo de vida adulta é muito mais sobre fracassos do que nos deixam saber. E dizem que fracassos são terríveis.

Você tem um pé na adolescência e um pé na vida adulta, e tem dias que balança pra cá, pra lá, até que você cai de bunda no chão. Acho que comecei a olhar as coisas dessa forma e quem sabe curtir melhor a viagem.

Estava contando para alguns amigos como me sinto: com muitos calos e história para ser uma jovem de vinte quatro anos, muito nova para realmente me sentir madura para encarar a vida e dizer “tô pronta, vamos lá sua chata!”. É um limiar tenso, ora divertido. É sobre o peso de pagar todas as contas, encarar as reuniões mais assustadoras e trabalhar muito e não me sentir muito preparada.

Me dei conta que grande parte das pessoas que gosto agora não vão ser meus amigos daqui dez anos, que meus amigos de dez anos provavelmente não vão ser mais tão amigos, que as situações que achava grave faz alguns anos, hoje me são tão bestas, provavelmente meu hoje vai ser estranho daqui um tempo. Meu amor já não é tão romântico, não pautado em um sentimento enorme que faz loucuras, mas sim numa convivência incrível que dá suporte para todo esse amor no peito.

Tenho tentado me permitir rir de coisas graves e lembrar daquela Paola que podia contar piadas sobre todas as coisas – até as que não devia. Hoje, olho você toda energética, não querendo comer, não querendo dormir, não querendo ponto e penso como crescemos.

Helena, como nós crescemos.

Você logo menos faz quatro anos, eu logo mais faço vinte e cinco. Nós, juntas, vamos fazer cinco anos na vida uma da outra. Desde aquela época em que tomava mais café do que meu médico recomendava para uma mulher grávida, até o hoje, que ficamos até tarde assistindo desenho porque pode. Quem disse que não pode? Eu não.

Lembro que sempre fui a garota que ficava do outro lado da porta espiando as coisas, sem coragem de ir realmente até ali. Com o tempo, e o desespero financeiro, aprendi a chutar algumas portas. Mas a verdade é que bater, dizer Oi e pedir para entrar exige a coragem de ouvir um não e voltar lá pro canto, ou ouvir um sim e topar ver algo novo. Realmente novo. Como perceber que você já foi essa menina.

Voltei lá no passado e ri um pouco da cara dele (o passado), foi bom. Hoje consigo rir muito mais da cara das coisas do que ficar muito enraivecida e passar o dia com o estômago quase sangrando. Está sendo um processo e você tem me ajudado nisso.

Ver uma criança crescer tem um pouco de pensar que se você está aprendendo todo esse mundão novo, eu certamente posso aprender todo esse mundão novo também. E assim eu estou amando um outro homem, e falando para ele diretamente tudo que sinto, tudo que não permito, tudo que quero. E aprendendo a aceitar todas as dobras do meu corpo, todas as manchas que estão surgindo no meu rosto porque esqueço de passar protetor solar, toda a minha capacidade de criar coisas e fazer algo estranho virar algo muito bom com algumas palavras, com uma ideia.

E sinto um baita orgulho de ver você construindo uma referência positiva da nossa mistura. Você tem duas casas, dois bichinhos de dormir, um para cada casa, duas caixas de brinquedos, uma família em cada cidade, e assim como você sempre conseguiu expandir seu coração e entender tudo isso, eu consegui expandir o meu e estar com você na hora de dormir, em pensamentos, enviando bons sentimentos para sonhos onde canto parabéns para você.

Essa é uma carta bem simples. Nenhum ensinamento.

É só um aviso: estou no caminho. Melhorando. Curando as feridas.

Obrigada, filha.

Com amor,
Mamãe.

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