História com final feliz

arte: Alice Wellinger

Carta escrita no dia 13 de julho de 2017.

Helena,

Hoje uma pessoa me disse que o brasileiro gosta de final feliz e devia tomar cuidado com o final do meu livro, sabe, algo positivo vai bem. E pensei no meu eterno vício por romances chulos com finais óbvios e felizes, claro. Desde adolescente sempre peguei dois livros “bons” e um que me fizesse dormir um sorriso no rosto.

Na minha cabeça aquilo fazia sentido: em um vou ler um romance aclamado pela crítica, no outro vou descobrir uma informação nova e no último vou me sentir bem com um romance cheio de ideias irreais  que jamais irei viver.

E assim fui criando hábitos sobres histórias e percepções. Coisas que ninguém sabe, como inventar memórias sobre desconhecidos no ônibus ou me imaginar numa banda enquanto ando de manhã. Um pé aqui, um pé lá. Sempre assim. Sempre centrada, sempre sabendo o que está fazendo.

E faz duas semanas que estou de cama, me recuperando de uma cirurgia grande que me deu o maior susto da vida até então. E sabe o que não me sai da cabeça? Como tudo isso aconteceu.

Não o motivo que me fez ficar doente, mas como lidei com isso. Você estava aqui, iríamos juntas para o escritório no dia seguinte, mas passei muito mal de madrugada. Por algumas horas fiz planos na minha cabeça de como seria chamar a emergência com você aqui, nós duas sozinhas. Pela manhã, depois de um monte de medicação, consegui ficar de pé.

Por um tempo pensei: Ok, estou bem, vou me arrumar e ir para o trabalho com a Helena, no fim do dia passo no médico.

Filha, por alguns minutos esse foi meu plano.

E eu não sabia, mas meu abdômen esteva cheio de sangue, estava fraca e numa situação de emergência planejando ir trabalhar porque precisava. Porque apesar de que quando avisei que iria ao médico ter escutado um “vá, por favor, é algo sério”, achei que estava tudo bem deixar pra lá, afinal, minha semana estava planejada, não iria atrapalhar tudo com minha saúde não é mesmo?

Já te escrevi várias vezes sobre não deixar que o mundo te engula, mas querida… É tão mais difícil do que essas cartas um dia vão conseguir passar.

Desde que você foi morar com seu pai coloquei na minha cabeça que deveria trabalhar em dobro, dar conta de tudo, ser uma super mulher e resolver nossa vida, deixar tudo certo, ser alguém de sucesso nessa jornada de nos sustentar, de sustentar essa máscara tão pesada todo dia. Preciso me encontrar, ser alguém melhor, conseguir coisas.

Sorria, seja forte, fale não, seja decidida, mostre para o que veio, seja uma ótima profissional, faça os planos, faça acontecer, continue. Parece que troquei aquela imagem da jovem abandonada pela vida por uma mulher resiliente e imbatível, mas é tão mentira.

Hoje, tenho abraçado com um pouco mais de amor as partes que me fazem ser quem sou sabendo que isso não me faz mais fraca. Honestidade alguma me faria fraca.

Ter que ser uma pessoa muito madura e tomar um monte de decisão difícil tão cedo me deu outra armadura, mas na verdade, a gente tem que saber quando aquilo que nos protege também pode nos aprisionar.

Dos clichês, dizem que nossas fraquezas nos fazem forte. Não, nossas fraquezas não são algo negativo para precisar de comparação positiva. Final feliz é o ponto da história que você olha para trás.

Não preciso ser forte. Não preciso ser alguém que vá ser teu exemplo de fortaleza. Posso ler três livros que me façam suspirar.  Sua mãe não é intocável ou inabalável, sou uma jovem que caí e às vezes machuca, que pula no lugar errado e erra todo dia, inclusive com a própria saúde.

Baixar a guarda é necessário para entender que o mundo não está em guerra com você, mas talvez, seja a hora de cessar a guerra com seu próprio mundo. Boas histórias com finais felizes não existem, existem boas histórias com muita felicidade, luta, tristeza, problemas e talvez uma piada no final.

Somos misturados, complexos, densos, fracos e fortes. E se chorei por todos esses dias achando que falhei nesses últimos dois anos já que não alcancei todas as minhas expectativas sobre minha própria vida e fortaleza, tudo bem, foi necessário para entender isso também. Falhei. E agora?

Agora a gente se recupera e continua menos imbatível, um pouco mais humana, gentil com os calombos.

No final, podemos nos fortalecer sem fechar todas as portas, fazer cara feia e bater mais forte que a vida. Dá para ser forte tomando suco na sombra com o coração calmo. Dá para ser forte pedindo ajuda. Dá para ser forte sabendo a hora de parar.

Forte sendo quem se é.

Com amor,
Mamãe.

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