Perdida na vida

Arte: Alice Wellinger

Carta escrita no dia 17 de maio de 2018.

Helena,

Faz uns dias que joguei as coisas todas pro alto novamente.

A história começa com sua mãe em pleno desespero às 18h de uma terça-feira. Uma lista imensa de trabalho para entregar e a perspectiva de mais um dia sair tarde, chegar em casa arrasada, falar apenas sobre trabalho, dormir e começar tudo novamente. Num ímpeto de raiva e exaustão, fui até o RH e proclamei: não dá mais, não quero mais, estou pedindo demissão.

Duas semanas depois estava bêbada, chorando no meio de um jardim em Santo Antônio do Pinhal tentando entender o que estava fazendo da minha vida. O céu estava lindo, cheio de estrelas e um monte de sapos cantavam em volta. Foram anos gastos em São Paulo tentando construir algo, tentando exaustivamente conseguir aquele sucesso que me falaram que viria se eu trabalhasse muito, me esforçasse e continuasse.

E sabe, o sucesso veio filha. Mas isso não me ajudou nem um pouco quando metade do meu salário há anos estava indo para remédios, médicos e medidas desesperadas para me sentir melhor porque nunca conseguia estar com você, estar comigo.

No dia seguinte chamei um colega de infância para perguntar sobre a Paola de treze anos que um dia ele pediu para namorar. No meio de toda a história, o que mais me chamou a atenção foi quando ele contou como as pessoas passaram anos informando-o de como falhei na vida.

Sempre contavam as coisas “ruins:, que estava grávida, que engordei, que estava “perdida na vida”, como era um exemplo de fracasso na cidade. Na hora dei risada, porque sei de tudo e, inclusive, foi por isso que comecei a escrever: ser o fracasso para as pessoas que você mais ama te faz sentir uma solidão sem fim e ter uma perspectiva curiosa sobre o lugar em que se vive.

Mas o perdida na vida ficou ecoando na minha cabeça.

Comecei a me questionar por que havia feito tudo que fiz. Por que vendi tudo que tinha, por que me mudei para essa cidade, por que aceitei os empregos mesmo sabendo que eles iriam acabar comigo aos poucos, por que me recusei a ouvir minha voz interior quando ela disse basta, já deu. Por que tanto medo de algum dia me acusarem de ter falhado.

Porque no fundo é isso, fiz todo o possível para fugir do meu passado, da minha história. Parei de escrever, parei de me ouvir, parei de ter tempo, me tornei aquilo que esperavam: uma jovem viciada em trabalho com valores completamente distorcidos de sucesso e plenitude.

Justifiquei cada ausência como algo que não podia ser evitado. E fiquei tão exausta que não tive mais tempo de refletir sobre nada.

Afinal, quando você trabalha mais de doze horas por dia, em que momento exatamente vai pensar se está fazendo algum bem pro mundo, para si mesma? Não seria essa a lógica? Produza até virar o produto.

Helena, faz um mês que estou em casa me recuperando de todas as doenças que o estresse pode causar e só consigo pensar que nada do que fiz me deixa nem um pouco orgulhosa. Poderia amassar cada projeto e trabalho que entreguei nesses anos e jogar em algum lixo. Estaria ótima.

Por agora, irei oficialmente abraçar o “perdida na vida”, pois é exatamente assim que me sinto. Não fiz nada que me deixe feliz, faltei em todas as festas da sua escola, não vi meus amigos, não escrevi meu livro, não escrevi sobre nada que gosto, não cuidei da minha saúde, não tentei viver melhor, não fiquei perto de você nem um décimo do que queria.

Fiz poucas coisas que me deixaram feliz de verdade mas fiz tudo aquilo que esperam que pessoas da minha idade façam. Investi minhas moedas emocionais no jogo errado e declaro oficialmente que perdi.

Deixo São Paulo com a certeza que essa cidade doente e mesquinha irá continuar retirando o melhor das pessoas e vendendo como inovação. E que mesmo assim é linda se você souber olhar do ângulo certo. Talvez no futuro eu saiba viver melhor tudo isso.

Essa cidade que me violentou, abusou, explorou e machucou até eu desistir de levantar da cama. Me apresentou as melhores pessoas, me deu conhecimentos que irei usar para sempre. Essa cidade que me destruiu e, por fim, devolveu a coragem.

Recomeçar é um grande privilégio.

Iniciamos oficialmente nossa fase completamente perdida na vida de peito aberto, bolso vazio e sorriso no rosto.

O sucesso que vá pro inferno, junto com todas as pessoas, projetos e empresas.

Eu vou é ficar com você, com minhas palavras, com minha vida.

Com amor,
Mamãe.

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3 comentários sobre “Perdida na vida

  1. Me fez lembrar de uma música do Humberto Gessinger (Faz parte) que diz assim:
    Preciso me perder como preciso de ar
    Perder o rumo é bom
    Se perdido a gente encontra
    Um sentido escondido em algum lugar…

    Que seu (re)começo seja feliz como você merece!

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