Parabéns, colheres e o comercial de margarina

Arte: Alice Welinger

Carta escrita dia 19 de abril de 2018.

Helena,

Sua mãe provavelmente é uma daquelas pessoas sorrateiras que ficam observando os outros. Alguns filmes de terror colocam tais perfis como vilão, mas na verdade sempre fui muito curiosa sobre como todo mundo se comporta quando acham que não estão sendo observados.

Como as pessoas pegam seus celulares automaticamente quando se sentam para fazer uma refeição. Ou como uma mãe fica com o olhar vazio por vezes quando seu filho está na caixa de areia. Tem também os vendedores de café da manhã que estão em várias esquinas da cidades. Eles arrumam o pedaço de bolo, o café e cobram sem nem mesmo olhar para o rosto dos fregueses.

Não é sobre julgar, realmente gosto de observar tudo isso e colocá-los em minhas histórias. Em um universo onde analiso grandes números, observar coisas sem “valor” me lembra que sou humana. Sou um like, um seguir, um crush, mas também sou humana. Ainda estou aqui.

E tem um restaurante em si que amo por perceber como tudo ali é tão tão forçado. Sim, é estranho me sentir livre num ambiente forçado, mas isso provavelmente diz muito sobre os ambientes que normalmente vivo. Me sinto entre iguais. E ali, é algo gritante.

Os atendentes sempre sorriem, te tratam super bem, brincam, estão constantemente de olho no seu prato, copo e tudo que mostre desconforto. Você se sente abraçado se se perceber  o esforço humano que tudo isso representa. Ao virar para a próxima mesa, é fácil notar aquela ruga entre os olhos.  O pescoço rígido. Os braços cansados de levar pratos pesados de um lado para o outro.

E provavelmente meu momento preferido é o parabéns. Eles se reúnem em volta da mesa e cantam parabéns batendo colheres, palmas, uma felicidade. Quando termina, todos viram e é como se nada tivesse acontecido. É aniversário de quem mesmo? Ah sim, o cliente número 45 do dia que fez aniversário e ganhou um sorvete. Certo.

Hoje contei para uma moça que sempre vejo por lá que estava indo entregar minhas coisas porque pedi demissão. Ela me disse que não devia falar sobre isso, mas também havia pedido licença porque era muito difícil estar sempre muito feliz. E como eu entendo ela. Feliz em mudar de mesa em mesa. Feliz sempre.

Ela deu risada da minha descrição visceral do parabéns, como era quase como se eles estivessem pegando aquelas colheres e batendo para acordar o deus das sobremesas sem gosto. No fim, anotou num papel uma série para assistir chegando em casa.

E advinha? O começo da série é uma mulher que fica obcecada com uma propaganda de margarina com a seguinte questão “Quando foi a última vez que você foi feliz?”. Uma advogada de sucesso, descobre que será promovida e pira porque isso está em todo lugar.

Querida, eu achei que por muito tempo meus problemas de adulta seriam dinheiro, romance, sei lá. Mas a verdade é como você luta para não se tornar alguém que acha tudo normal. Olha, uma pessoa passando fome na rua, que normal. Nossa, estão usando nossos dados para manobra política, mas poxa, tá tudo bem.

Claro que aquele garçom tem que me tratar super bem mesmo eu nem olhando para a cara dele. Sou muito especial!

Os sentidos vão ficando tão gastos, tão em segundo lugar. Eu sei que o mundo está perigoso, mas além do dia de hoje, fazia meses que não conversava com alguém que não fui apresentada porque teria que trabalhar com ela. E minhas poucas tentativas de abrir diálogo com elas foi imensamente falho pois não estava falando só de trabalho.

Lembro que a última vez foi um homem em um semáforo. Ele devia ter uns 70 anos e me disse que tinha o rosto igual uma atriz da época dele. Sorri. Me senti feliz. Provavelmente ele jamais irá saber, mas meu dia estava sendo horrível. Tinha acabado de ser destruída psicologicamente em uma reunião ao ouvir vários absurdos e só queria chegar em casa e morrer de exaustão na cama.

Todo mundo precisa de um “Quando foi a última vez que você foi feliz?”. Porque não tem como ser feliz toda hora, todo dia, mas tem como ser feliz algumas vezes com pessoas que assim como você, precisam da mesma questão.

Provavelmente vou voltar lá e deixar meu telefone com aquela moça. Acho que podemos rir juntas de parabéns, colheradas e sei lá, como meu pâncreas tá todo destruído de estresse.

Helena, pare e observe: quão devastada você está sendo pelo meio que você vive?

Essa resposta importa.

Com amor,
Mamãe.

Anúncios

Projeto de vida

Carta escrita dia 15 de abril de 2018.

Helena,

Esse ano comemoro três anos morando em SP. Sempre que me perguntam desde quando estou aqui, segue a questão “E está gostando?”. Aprendi a responder que tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade, só não conto que isso se deve a todo o conhecimento sobre a mulher que sou que essas ruas  me ensinaram.

Quando saí  de Pindamonhangaba sem nada, sonhava com liberdade. A liberdade de poder conhecer pessoas novas, construir uma vida profissional sólida e te criar nos meus próprios termos. Meu último ano foi mais trancada em casa que descobrindo algo novo. Tudo de novo foi muito custoso. Pedi demissão do cargo que sonho faz alguns dias. Descobri que você me ensina mais sobre te criar do que eu. E amor, amor é construção. Romance… O que é isso mesmo?

Exatamente agora me sinto amargurada. Sabe o sentimento de nadar, nadar e nadar para chegar exausta na praia? Sonhando com uma cama quente? Então, parece que poderia dormir por dias e continuaria exausta e não sei nem se valeu a pena tocar na areia desse pseudo paraíso.

Por anos exerci um cargo sem ter o nome dele, até que finalmente consegui e percebi que estava me tornando alguém que odiava ser. Uma pessoa no automático, com prioridades invertidas. Cuidado com o que desejas, pode se tornar realidade. Talvez acabe por tatuar essa frase em alguma costela. Nada resume melhor essa fase da vida.

Tudo que queria descobrir e experimentar, tem sido uma luta conseguir uma parcela disso. Ter que convencer todos a minha volta e eu mesma da importância de buscar essa liberdade… Essa liberdade que me custou tão tão caro, me coloca por questionar os últimos anos. Devia ter saído de Pinda? Devia ter feito metade do que fiz? Por que estou fazendo tudo isso ainda?

E acho que tudo se intensificou depois que dei uma palestra em uma escola numa cidade do Vale. Foi difícil responder sobre meu atual projeto de vida, quando parece que meu propósito se perdeu em algum momento dessa confusão toda. Temos um lar confortável que por vezes parece me comprimir até faltar ar. Tenho uma promissora carreira profissional que me fez trabalhar até a exaustão, até esquecer o que estou fazendo. Tenho todo um futuro pela frente e continuo sentindo que nadar, nadar e cair na praia não é o caminho.

Nem o que escrevo faz sentido.

Mais uma vez enjaulei meus sonhos e desejos para existir no espaço que me coloquei. Me adaptei. Me satisfiz com o que foi dado. Me justifiquei e desisti com desculpas esfarrapas. Cada dia mais acordo com a sensação que se encontrasse aquela Paola que pegou o ônibus para essa cidade, diria que tudo que ela queria, conseguiu. Parabéns.  E agora ela irá se sentir todo dia um pouco morta por dentro.

E é isso querida, encontrar esse tal equilíbrio. Esse espaço físico e mental onde você tem foco para chegar onde quer, mas precisa não se apequenar para existir em universos limitados. Se mutilar e diminuir para viver a caixa de outras pessoas. Precisa mudar as metas, desistir das pessoas, dos empregos, das histórias quando necessário. Entender que não é sobre todas essas coisas e status, é sobre a meta inicial: se sentir bem, sentir que tem liberdade para ser como se é. Lutar por ideias e direitos que façam a diferença.

Provavelmente vou passar por mais algumas várias mudanças até o fim do ano. Parece que algumas coisas do passado se repetiram para mostrar que não tem como só mudar os personagens da história, é preciso mudar a história em si.

E bem, esse é o projeto de vida.

Viver bem. Saber viver. Aprender a aprender.

Com amor,
Mamãe.

 

Para o pai que nunca tive

Carta escrita no dia 26 de março de 2018.

Helena,

Faz uns dias que tenho pensado em escrever uma carta para meu pai. Ensaiei as palavras, acusações e sentimentos no caminho para o trabalho, antes de dormir, em escapadas distraídas em reuniões de trabalho.

Por fim, concluí que talvez não fizesse sentido escrever uma carta para um homem que se transformou num desconhecido desde os meus dez anos de idade. Isso jamais iria fazer diferença alguma na história que percorri até então, mas talvez pudesse me ajudar a reorganizar o futuro. Esse futuro que já não me assusta, mas me deixa inerte, compreendendo que aquela ideia de perder o controle nunca foi tão real.

Pensei no meu pai quando cheguei nessa cidade voraz e senti que por mais que trabalhasse vinte horas, fizesse tudo que todo mundo quer, mesmo assim não estaria bom. Sempre faltaria algo. Pensei que ele poderia segurar minha mão e me levar até a padaria do bairro para comprar um pavê, igual fez todos os fins de semana da minha infância.

Lembrei dele quando você nasceu. Acreditando que poderíamos superar tudo e finalmente teria o convívio de alguma família. Minha filha teria mais que uma mãe e uma avó. Imaginei alguns fins de semana. Imaginei tanto que por vezes contava histórias como se fosse real.

Pensei nele quando esperei numa delegacia ficar pronto meu B.O por estupro. Pensei que ele poderia estar ali para me defender do olhar julgador da atendente. Quem sabe, pudesse deixar na mão dele um pouco da dor que sentia, da terrível solidão que parecia comer minhas entranhas.

Por algum motivo, pensava nele em todos os momentos que me faltavam forças. Ele ainda era o herói que sempre admirei. O homem que acordava cedo, ia para a fábrica, voltava, deitava sempre no tapete, gostava de colocar maionese no prato de comida. O homem que gostava de bolo de fubá e sopa com pedaços de frango. O homem que me levou para fazer o primeiro cadastro na biblioteca municipal da cidade e ele nem sabia que com isso estaria mudando minha vida.

E por muitas vezes gritei com minha mãe a raiva que sentia desse mesmo homem que aos poucos foi me abandonando. E ali, no cantinho da minha cabeça, ele sempre existiu numa fantasia benevolente.

Agora, com tudo que já passou, percebo que todo o conhecimento que tenho do que faz homens fazerem isso com seus filhos, na verdade, melhorou minha dor. Primeiro me revoltou e me causou a maior raiva que já senti até então. Depois, percebi que precisava seguir em frente. Era necessário dizer adeus ao homem que só existiu em minha mente e ser justa com as mulheres fantásticas que de alguma forma cuidaram de mim. Me incluindo nessa lista.

Precisava me apegar ao que existia de forte no meu ser. E assim, a Paola se levantou da delegacia acreditando que tudo ficaria bem. A Paola pegou na mão da pequena bebê que tinha nos braços e caminhou. Filha, apesar de só ter revisitado o passado criando um novo significado para ele, isso fez toda a diferença.

Foi necessário voltar para o dia que fugi da casa dele aos treze anos. Sentir o sol, notar a roseira no jardim florescendo novamente. Abraçar minha irmã ainda bebê mais uma vez e dizer algo que nunca disse para aquele homem: você não me decepcionou, infelizmente você fez aquilo que muitos pais fazem, eu só não sabia disso até então. E agora… Agora eu preciso seguir sem você.

E sem romantizar, justificar ou tentar conversar, foi exatamente isso que fiz. Pois laços de sangue não são uma justificativa para fingir que nada disso aconteceu. Só que precisei fazer isso: seguir.

E depois disso, você foi morar com o seu pai porque ele não é meu pai. Porque você vai ter exatamente aquilo que nunca tive no que depender da família fantástica que te cerca: o melhor de todos os mundos e realidades.

Crescer numa família completamente estranha me fez quem sou. Me fez escrever essa quantidade de cartas, começar um livro, ter o trabalho que tenho. Todas as visitas à delegacia, hospitais, brigas familiares, o medo, o ódio, a simples alegria do pão de batata e café com leite, tudo isso me partiu e remendou tantas vezes, que agora sinto que posso começar a deixar esses pequenos pacotinhos de mágoa, raiva e dor pelo caminho.

Por mim e por você.

Helena, se pudesse escrever algo para o pai que nunca tive seria: você fez falta, muita, mas agora preciso te abandonar em alguma curva dessa cidade.

E assim, rápido e nada fácil, seguir para a padaria mais próxima e tomar minha média coada rindo sozinha. Querida, que aventura doida é essa que chamamos de vida.

Ansiosa para os próximos capítulos.

Com amor,
Mamãe.

Tudo está fora do lugar mas faz muito sentido

Carta escrita dia 24 de janeiro de 2018.

Helena,

Aos vinte cinco anos percebi que me diverti poucas vezes. Não de me divertir saindo, encontrando amigos ou tentando fazer coisas numa tentativa desesperada de me enturmar, mas de fazer algo que queria muito com o único motivo de me satisfazer pessoalmente.

Nenhuma justificativa sobre ir trabalhar, levar você para férias ou fazer algo em casal, pensado para a família ou para amigos. Fiz algo por mim, para mim. Aos 25 anos. E algo tão simples foi todo um universo de transformação.

Numa noite, peguei a mochila, coloquei várias roupas, procurei a viagem mais barata possível e uma que jamais faria sozinha por sempre desistir na última hora: não é o momento, preciso trabalhar, não tem como levar a Helena, mas é um lugar que fulano não gosta, não posso… Não posso.

Deliberadamente sai do assunto, apenas fui. No ônibus, pensei que conhecia dezenas de pessoas da minha idade que já tinham viajado para outros continentes, mochilões, idas hedonistas para a praia… O que exatamente eu estava fazendo da minha vida mesmo durante esses anos? Ah, sim, meus últimos cinco anos foram como sua mãe, metade deles gritando para o mundo que eu podia ser mais que apenas sua mãe.

Talvez ao ler isso você pense que me arrependo de ter você e desde o seu nascimento eu me privei, não pude, como se você, tão nova, fosse uma pedra na saída de um longo túnel. Filha, as transformações que me aconteceram nos últimos anos foram tão bruscas e enormes, que olho para a menina que te segurou nos braços na saída de um dia chuvoso e tenho vontade de começar a rir e chorar. Coitada, ela realmente acreditava que um bebê seria sua redenção de vida.

Helena, você foi e é aos quatro anos minhas noites em claro, meu eterno coração dolorido de saudade, o olhar apertado pensando em receitas que você coma sem berrar na mesa, a permanente ruga entre os olhos de preocupação sobre não saber muito bem o que estou fazendo ao tentar educar uma criança quando nem eu sei coisas tão básicas da vida como me divertir ou relaxar. Mas também é a centelha de fogo que me ajudou a acender essa fogueira onde queimo tantas mágoas, traumas e medos. É o coração cheio ao dormir comigo desejando que você tenha uma infância feliz e na vida adulta, saiba que terá sempre alguém para voltar se algo der errado.

Mas não, nos últimos cinco anos tenho vivido processos que me permitem hoje pegar aquela mochila, viajar quatorze horas até uma ilha e me perder entre suas trilhas de areia, quase esquecendo quem sou.

Não por vergonha, por detestar minha vida, por não querer ser sua mãe, mas por viver isso uma forma mais questionadora e profunda, me permitindo sim esquecer dos problemas pois eles são uma parte da vida, não o total dela. Poder partir e voltar para dentro sem temer me perder.

Tudo isso me fez analisar todas as amarras estruturais que me foram impostas quando me tornei sua mãe não porque você é uma criança, mas porque o mundo tem uma forma de lidar com mães que me fizeram adoecer e por vezes duvidar da minha própria sanidade.

Por várias vezes escrevi sobre como estava sem controle da minha vida e tudo bem isso. Como sou forte e posso tudo. Helena, quem tentei enganar mesmo? Lá, sentada no primeiro luau da vida, com o mar batendo na encosta e jovens bêbados cantando músicas, percebi que realmente, não estava com eles na mesma página mas podia me sentir bem em estar ali vivendo minha própria realidade.

Não uma estranha entre jovens ou uma menina entre mães que se encontram na reunião do condomínio, apenas uma jovem que se tornou mãe e tomou coragem de fazer coisas sozinha. E preciso valorizar, comemorar e repetir esses pequenos passos.

Desejo que um dia você encontre, independente do tipo de gosto ou escolhas que faça, a mesma liberdade para se permitir só se divertir, filha. Se um dia for mãe, se nunca for, se decidir mudar de planeta ou se transformar numa girafa, apenas desejo que onde esteja, consiga encontrar momentos de fuga e tranquilidade, como quiser, numa multidão ou sozinha num canto do continente.

Lá, quando tentava encontrar onde estava com um mapa todo amassado nas mãos e um sol escaldante queimando os ombros, numa mata silenciosa, me senti tão perdida que sentei numa pedra e fiquei desolada. Sem entender que aquilo era uma bela metáfora para minha maternagem, minha infância, minha vida adulta.

Um cachorro da ilha me encontrou e ficou no retorno, me olhando. Esperando, como quem diz “Essa menina tá perdidinha”. E levantei, segui, lembrei de quando estávamos de férias numa cidade no interior que nunca nem cheguei perto, depois de horas de viagem de ônibus, procurando um restaurante aberto às 23h de um dia de chuva, quando você me perguntou “Mamãe, você tá perdida? Você parece perdida”.

E eu olhei para o mapa, olhei para a noite e jantamos lasanha de madrugada naquele dia. Sim, bem perdida. Tudo está fora do lugar mas faz muito sentido.

Se sua mão estiver ali, segurando a minha e minha companheira nessa grande viagem puder me fazer rir, chorar e entrar em pânico, provavelmente em algum momento encontro o caminho, amiga.

Com amor,
Mamãe.

Você não é o seu trabalho

arte: Antony Micallef.

Carta escrita no dia 20 de dezembro de 2017. 

Helena,

Quando criança, te perguntam o que você quer ser quando crescer esperando uma profissão. Quero ser advogada. Quero ser astronauta. Quero ser escritora. Quero construir pontes.

Sua vida toda é centrada em se formar como uma pessoa de conhecimentos. Anos numa instituição de ensino aprendendo, se preparando para um vestibular. Escolhendo aos 18 não sobre aquele sonho de criança, pois sonhos de criança não efetuam débito, não digitam senha de crédito.  Eventualmente sim, mas a lacuna da história de cada um nos separa no nascimento. Poucos com pré-vestibular, vestibular, universidade, pós, mestrado, doutorado, proclamando a ideia de igualdade construída com a moça do café da universidade que nunca nem foi apresentada a meia oportunidade.

Mas não somos ensinados a olhar isso. Você precisa crescer.

Precisa aprender, produzir, se infiltrar. Dez. Doze. Quatorze horas por dia de sucesso.

Seja produtivo.

Toda uma vida esperando para ser alguém quando você sempre foi.

Você ainda é a criança que falava sozinha com os brinquedos. Você é a adolescente que busca seu lugar no mundo. Você é a pessoa que aprendeu a ser divertida assistindo desenhos. Que aprendeu a escrever com Harry Potter – como a sua mãe, será?

A pessoa que sabe lidar com mil projetos porque já lidou com um bebê, uma casa, uma vida, um marido chato e todo um mundo dizendo que poderia te substituir amanhã. A pessoa que ouviu desde cedo que seu cabelo é feio e aprendeu a observar resistência onde ninguém vê, na altura dos privilégios e isso te transformou em alguém que olha. Realmente olha para as coisas.

Cada experiência mundana, da sua casa, da sua relação, dos traumas, aos dias de chuva e dias de sol, tudo isso te faz ser alguém.

A lógica de mercado pode te exigir mil diplomas e o melhor portfólio do mundo, e você pode nunca alcançar esse longo patamar de sucesso que algumas pessoas decidiram, você continuará sendo alguém.

Alguém formado por vivências e a chance de percepção. Seja ela sobre o mundo de privilégios que você senta ou a grande montanha de desigualdade que te separa.

Você é alguém. Não melhor que nenhum alguém. Mas você não pode ser apenas o que essa lógica quer. Porque veja bem, você tem muito aí.

Quando ouvir: e aí, me fala de você.

Fala da sua infância, fala do que você faz quando está exausta. Não fala sua profissão, não fala no que se formou.

Quando perguntarem: o que você faz da vida?

Experimente responder: olha, tenho vivido, está sendo bem intenso, esses dias…

Não escreva sua apresentação usando a primeira frase, a mais importante de todas, para falar como você é organizada, pró-ativa, com espírito de dono, veste a camisa, apaixonada pelo o que faz, respira inovação.

Quem é você mesmo?

Você não é o seu trabalho.

Faça faculdade.
Tenha o trabalho dos sonhos.
Continue.

Mas quando as pernas falharem e você chegar em casa muito mal de um dia péssimo.

Lembre-se

Você não é o seu trabalho.

Com amor,
Mamãe.

a melhor parte

Carta escrita no dia 10 de dezembro de 2017.

Helena,

Hoje faz nove anos que sua irmã morreu. E queria dizer que existem formas de começar essa carta com outra frase, mas acho que já me sinto mais tranquila para usar a palavra morte.

Em 9 anos você nasceu, eu mudei de cidades três vezes, troquei todas as células do meu corpo, briguei e gargalhei, saí da adolescência e me transformei numa adulta. E mesmo assim, todos os dias, uma pequena parte de quem sou congelou no dia 10 de dezembro de 2008.

Se com você aprendi a encarar meus medos, entender os erros e persistir eternamente, com Laura aprendi o que é encarar o vazio, a ausência, o reflexo. São 9 anos de uma criança que não correu pelo parque, não aprendeu a ler. São 9 anos de uma filha que o mundo deixou de considerar mas que eu ainda sinto chutar minha costela lá no fundo da memória.

Com ela não houve uma história de como me tornei mãe, houve a história de como me tornei quem sou. Cada parte do meu corpo, apesar de ser refeito, renovado, trocado, modificado, cada parte vai ter para sempre a história de um bebê ruivo que sorria desde o nascimento.

A história das crianças que não estão aqui quase sempre não são contadas, mas a dela será. Sempre. Não por viver no passado, mas porque tudo que sou, a mãe que tento ser para você, também respirou com ela e deixou de bater o coração ali. Transformou-se.

Por muitos anos senti isso, como se faltasse uma parte esmagadora de mim. Sem saber lidar, tentei preencher com todos os tipos de coisas. Comida, namoros, mentiras, desconhecidos. Mas Laura nunca deixou um vazio, ela deixou um espaço que não é ocupado pelas histórias que não vivemos, mas tudo que eu vivi desde que ela se foi.

Como aprendi a viver, como lutei e luto contra uma doença que às vezes é tão dura que me corrói os ossos, mas que também me transformou em fortaleza. É um lugar onde vive minha melhor parte, mesmo que essa parte tenha dor.

Tem dias que vejo muito dela em você. Não porque quero ver coisas da minha filha morta na filha viva – já me falaram isso. É que vejo vida em ti. Pura, simples, pulsante. E Laura sempre foi e será isso: a melhor parte.

Vocês duas.

Feliz aniversário, filha.

Estou cansada, mas continuo.

Com amor,
Mamãe.

História com final feliz

arte: Alice Wellinger

Carta escrita no dia 13 de julho de 2017.

Helena,

Hoje uma pessoa me disse que o brasileiro gosta de final feliz e devia tomar cuidado com o final do meu livro, sabe, algo positivo vai bem. E pensei no meu eterno vício por romances chulos com finais óbvios e felizes, claro. Desde adolescente sempre peguei dois livros “bons” e um que me fizesse dormir um sorriso no rosto.

Na minha cabeça aquilo fazia sentido: em um vou ler um romance aclamado pela crítica, no outro vou descobrir uma informação nova e no último vou me sentir bem com um romance cheio de ideias irreais  que jamais irei viver.

E assim fui criando hábitos sobres histórias e percepções. Coisas que ninguém sabe, como inventar memórias sobre desconhecidos no ônibus ou me imaginar numa banda enquanto ando de manhã. Um pé aqui, um pé lá. Sempre assim. Sempre centrada, sempre sabendo o que está fazendo.

E faz duas semanas que estou de cama, me recuperando de uma cirurgia grande que me deu o maior susto da vida até então. E sabe o que não me sai da cabeça? Como tudo isso aconteceu.

Não o motivo que me fez ficar doente, mas como lidei com isso. Você estava aqui, iríamos juntas para o escritório no dia seguinte, mas passei muito mal de madrugada. Por algumas horas fiz planos na minha cabeça de como seria chamar a emergência com você aqui, nós duas sozinhas. Pela manhã, depois de um monte de medicação, consegui ficar de pé.

Por um tempo pensei: Ok, estou bem, vou me arrumar e ir para o trabalho com a Helena, no fim do dia passo no médico.

Filha, por alguns minutos esse foi meu plano.

E eu não sabia, mas meu abdômen esteva cheio de sangue, estava fraca e numa situação de emergência planejando ir trabalhar porque precisava. Porque apesar de que quando avisei que iria ao médico ter escutado um “vá, por favor, é algo sério”, achei que estava tudo bem deixar pra lá, afinal, minha semana estava planejada, não iria atrapalhar tudo com minha saúde não é mesmo?

Já te escrevi várias vezes sobre não deixar que o mundo te engula, mas querida… É tão mais difícil do que essas cartas um dia vão conseguir passar.

Desde que você foi morar com seu pai coloquei na minha cabeça que deveria trabalhar em dobro, dar conta de tudo, ser uma super mulher e resolver nossa vida, deixar tudo certo, ser alguém de sucesso nessa jornada de nos sustentar, de sustentar essa máscara tão pesada todo dia. Preciso me encontrar, ser alguém melhor, conseguir coisas.

Sorria, seja forte, fale não, seja decidida, mostre para o que veio, seja uma ótima profissional, faça os planos, faça acontecer, continue. Parece que troquei aquela imagem da jovem abandonada pela vida por uma mulher resiliente e imbatível, mas é tão mentira.

Hoje, tenho abraçado com um pouco mais de amor as partes que me fazem ser quem sou sabendo que isso não me faz mais fraca. Honestidade alguma me faria fraca.

Ter que ser uma pessoa muito madura e tomar um monte de decisão difícil tão cedo me deu outra armadura, mas na verdade, a gente tem que saber quando aquilo que nos protege também pode nos aprisionar.

Dos clichês, dizem que nossas fraquezas nos fazem forte. Não, nossas fraquezas não são algo negativo para precisar de comparação positiva. Final feliz é o ponto da história que você olha para trás.

Não preciso ser forte. Não preciso ser alguém que vá ser teu exemplo de fortaleza. Posso ler três livros que me façam suspirar.  Sua mãe não é intocável ou inabalável, sou uma jovem que caí e às vezes machuca, que pula no lugar errado e erra todo dia, inclusive com a própria saúde.

Baixar a guarda é necessário para entender que o mundo não está em guerra com você, mas talvez, seja a hora de cessar a guerra com seu próprio mundo. Boas histórias com finais felizes não existem, existem boas histórias com muita felicidade, luta, tristeza, problemas e talvez uma piada no final.

Somos misturados, complexos, densos, fracos e fortes. E se chorei por todos esses dias achando que falhei nesses últimos dois anos já que não alcancei todas as minhas expectativas sobre minha própria vida e fortaleza, tudo bem, foi necessário para entender isso também. Falhei. E agora?

Agora a gente se recupera e continua menos imbatível, um pouco mais humana, gentil com os calombos.

No final, podemos nos fortalecer sem fechar todas as portas, fazer cara feia e bater mais forte que a vida. Dá para ser forte tomando suco na sombra com o coração calmo. Dá para ser forte pedindo ajuda. Dá para ser forte sabendo a hora de parar.

Forte sendo quem se é.

Com amor,
Mamãe.