Fale agora, não se cale para todo sempre

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Carta escrita no dia 13 de fevereiro de 2016. 

Helena,

Provavelmente penso sobre solidão desde quando crianças deviam pensar em apenas brinquedos. Lembro que eu sentia essa angústia profunda sobre a morte quando tinha uns sete anos. Um pavor de pensar que um belo dia, em uma nefasta manhã, eu não iria mais existir. E o que pode ser mais terrível do que não existir quando somos jovens?

Não correr, não brincar, nem pular, crescer, descobrir e desvendar? Toda a nossa existência se foca nos melhores momentos, no prazer, na alegria. Então é comum não saber o que fazer quando a tristeza, a solidão e os piores momentos batem na nossa porta.

Afinal, a gente vive para ser feliz.  Por que diabos precisamos falar sobre tristeza? E sobre solidão? Por que alguém precisa falar sobre tamanha fragilidade?

E aprendemos que isso é uma forma de ataque: se você está sozinho é porque merece, porque ninguém te quer. Se está triste é porque não sabe ser feliz. Não merece felicidade. Esses sentimentos terríveis nos colocam na posição punitiva.

E é horrível ouvir isso. Mesmo. É horrível constatar isso. É aquele tipo de coisa que nossos medos de infância não nos preparam para enfrentar. Mas a questão é: por que isso precisa ser ruim?

Eu tenho uma família enorme. Mesmo. Dezenas de tios e de primos. Fiz dezenas de amigos na minha cidade. Gente que está por aí há anos. Mas chega aquele momento que fazemos escolhas. É o momento em que começamos a perceber o mundo e nossa própria opinião sobre as coisas.

Diria que é o momento que você se senta na mesa de jantar e ouve uma piada racista e sorri porque quem disse é da família. É quando o seu melhor amigo ri da piada que chama uma mulher de vadia e está tudo bem. Você não faz nada.

No seu interior, bem no fundo, você sabe que está errado. Sim, você já achou isso certo alguma vez na vida. Mas, hoje, isso não acontece mais. Agora é inaceitável. E você fica em silêncio porque tem medo de perder aquela pessoa, aquele laço.

Nós temos medo de perder pessoas terríveis em nossas vidas só pela certeza de ter alguém. Eu sei, já senti isso. Aliás, esse foi o grande dilema da minha existência. Ficar e sorrir. Ir e ter paz? O que fazemos com questões que envolvem medos tão primitivos?

Deixei ir.  Dá saudade da família? Dá medo? Nossa, tem dias que me sinto paralisada. Mas entre ficar triste pela distância e sofrer ao ver tudo que acredito ser despedaçado, a escolha até agora me parece a melhor. Entre me sentir solitária até encontrar pessoas que acreditem, que escutem, que escolheram também nunca mais se calar, bem, a solidão acaba sendo boa.

Eu diria que tudo é uma questão de perspectiva, mas estaria sendo hipócrita. Poderia falar que é apenas escolha, só que eu sou privilegiada o suficiente para entender que é essa condição que me permite escolher.

E isso é tão complexo que ainda não consegui chegar numa conclusão definitiva. Mas se alguém só te ama calada e concordando, para quem é esse amor? Se alguém só está com você por laços de sangue enquanto te oprime, a quem pertence essa presença?

Depois de uns anos eu percebi que o medo não é sobre deixar de existir, mas existir para ser silenciada. Paralisada. É me tornar refém de tudo isso por medo de sentir tristeza em deixar partir ou da solidão de destruir pontes. Aquelas que só te levam tristeza.

Não é sobre ter coragem. Não apenas, porque coragem entra em um daqueles conceitos relativos que dependem de tantos fatores, mas sobre entender que você não deve suportar enquanto seu ser é destruído. Não deve aceitar. Nada nessa vida vale quando destrói a SUA vida. Quando você deve se encolher para ocupar o espaço que acham que te pertence.

Eu vou estar aqui. Sua família, seja ela quem for, estará aqui.
E, querida, por favor, não seja metade por nós. Por eles.

Fale agora, não se cale para todo sempre.

Fique aqui.
Se for completa.

Com amor,
Mamãe.

 

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Lugar comum

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Carta escrita no dia 20 de dezembro de 2015.
O ano que mudou a nossa vida.

Helena,

Estava voltando do trabalho semana passada quando vi uma menina quase ser atropelada. Parece que meu destino é passar pela Avenida Paulista  e ver um acidente, e ficar ali, parada, como se o choque tivesse acontecido no meu corpo. E de alguma forma é sempre na alma. Dessa vez puxaram a menina que escrevia no celular animadamente a ponto de não perceber que estava na beira da calçada numa esquina de um dos lugares mais movimentados da cidade.

Ela, assustada, se encostou no muro e ficou respirando fundo, tremendo com o celular na mão. Preocupada, fui até lá perguntar se estava tudo bem. Talvez pelo choque, talvez pela necessidade, acabei ouvindo que a Carolina, uma estudante de 17 anos, estava fugindo de casa e iria morar com o namorado, e naquele momento em questão estava combinando como iria proceder.

Primeiro olhei para o céu, depois para aquela garota 6 anos mais nova, com um longo cabelo escuro e uma mochila azul e me reconheci naquela situação, fosse por paixão, fosse por não suportar mais os pais, ou até mesmo se o motivo fosse uma tendência à se rebelar, todos aqueles motivos que também já me motivaram.

Ela me contou em quinze minutos a história, sorriu, e partiu. Eu fiquei lá, vendo as pessoas passando, me perguntando, finalmente, depois de cinco meses, o que diabos estava fazendo nessa cidade. Caiu a ficha, Helena. Finalmente um grande balde de água fria despencava na minha cabeça.

Eu estava sozinha.  Ao meu redor milhares de pessoas corriam para urgências, saindo e entrando do trabalhando, se encontrando, amando, chorando e sonhando, e eu não era ninguém na multidão. Não era especial para ninguém ali. Chegando em casa não teria nada pronto, não teria um abraço, nem o conforto, só o meu reflexo no espelho.

Encostei no mesmo lugar daquela menina me sentindo pela primeira vez na vida vazia. Finalmente entendia o que era se sentir sozinho no meio de uma multidão. E isso me fez lembrar da primeira vez que saí de uma casa por vontade própria, lá com meus 13 anos de idade, poucos quilos, nenhuma ilusão para uma criança, saindo de uma casa por não suportar mais.

Já te contei essa história, mas não fui totalmente sincera, não falei o real motivo do porque fui embora. Não era apenas ser maltratada, era não ser aceita. Desde sempre fui a menina que ninguém queria no meio de uma família preocupada com seu próprio caos. Não era simpática, não falava, só queria ler, me achava feia porque não tinha nenhuma aptidão com nada do que me falavam.

Eu sei, é um clichê. Muitos filmes e livros já reproduziram isso. Só que eles não reproduzem com tanta precisão o terror que é viver isso. Me tornei uma mentirosa compulsiva na infância para suprir as lacunas da minha história. Não era uma menina no meio de um divórcio infernal, era uma garota cujo o pai era judeu e estava muito ocupado trabalhando. Não era alguém que sofria bullying na escola, era uma menina que não se importava com esses míseros humanos.

Anos me fechando em uma concha para me proteger da cobrança. Do medo, da solidão. Seja magra, porque olha só, sua mãe é gorda, você vai ser também. Sorria, olha só como minha sobrinha é, as pessoas gostam dela. Esses livros que você fica lendo são muito estranhos. Você é muito estranha.

E eu pensava que iria conseguir superar isso, que com o tempo iria doer menos. Com o tempo isso iria ser uma piada. Mas não é. Jamais será. E falar sobre isso sempre criará margem para alguém usar como ataque. E um dia grande parte das pessoas que você acha que nutrem algo por você vão partir. Em uma bela manhã você pode ser ignorada. Porque você decidiu falar, porque você decidiu se aceitar. A casa fica mais vazia, e pela primeira vez isso não é ruim.

Helena, ali naquele muro, no meio daquelas pessoas, eu não era estranha. Era mais uma na multidão. Estava sozinha! Sem ninguém para me incriminar, apontar, podar, rir ou silenciar. Se o preço para me libertar era esse, bem, poderia pagar por ele para sempre. Saber que meu trabalho reflete minhas crenças. Finalmente me sinto aprendendo algo, revendo privilégios, analisando tudo que me influenciou até hoje. Que temos os melhores amigos do mundo, e que você está crescendo tão forte, tão doce e independente.

Que tem dias que sento no sofá, tiro os sapatos, te dou o seu suco e fico ali, exausta, com o humor azedo, calculando todas as contas que se acumulam no fim do mês, mas que isso irá passar. Vou levantar, tomar banho, vamos brincar, dormir e será um novo dia. E hoje estamos mais perto da solução do que ontem. Que vou perder o sono, que vou me sentir culpada, mas que hoje, só por hoje, chegamos no fim do dia com um saldo positivo. Estamos juntas, estamos livres.

Tudo isso aconteceu em poucos minutos e a vida continuou. Peguei o ônibus, te busquei na escola, voltamos para a nossa rotina.

Não vou mentir dizendo que não tenho sonhos, que não espero algo de você, porque seria terrível. Realmente queria que você pudesse viver a infância que não consegui. A adolescência  que não pude ter. E quem sabe ser a adulta que eu ainda me esforço para completar.

Moveria céus e terra pelo o seu direito de ser o que você quiser. Ser o que você é. Não importa o tamanho do seu jeans, seu gênero, sua faculdade, ou a ausência dela, sua cor de cabelo, qualquer coisa. Queria que você pudesse um dia andar no meio da multidão e se sentir aceita.

Agora estou chorando bastante, e talvez essa carta fique difícil, mas queria poder garantir que nada disso será podado ou silenciado em você. E sei que sou uma, e o tempo passa. Sei que você irá enfrentar desafios, violências, preconceitos e estigmas, que talvez chegue o dia que te chamem de puta, adultera, fútil, estranha. Coloquem nomes para aquilo que desconhecem, ou jamais deviam querer supor. Um dia posso não estar lá para te defender.

Um dia você pode acreditar que não deve confiar em ninguém, assim como me senti. E os dois grandes conselhos que posso te deixar depois desse longo, exaustivo, destruidor e terrível ano, é: não desista e confie.

Não é sobre desconfiar de tudo e todos, mas confiar no seu instinto. Ele não mente. Ele dá medo, é difícil se ouvir quando somos influenciadas até amortecer os sentidos. Confie, Helena. Dê votos ao que o seu coração diz. O que sua mente manda. Se algo te diz que é abusivo, que está errado, que não pode ser assim, escute.

E não desista.

Essa parte é a mais terrível, tenho cicatrizes visíveis e tantas outras que ninguém pode ver, todas lembranças de desistências que terei que conviver para sempre. Só que ainda estou aqui, você ainda está aí.

Você está lendo isso, você chegou até aqui.

Esse é o nosso lugar comum, querida. É aqui onde todos nos encontramos. É quando você não sabe o que fazer, sentir e pensar. Quando a porta se fecha e no escuro você não encontra a janela. É aqui que você segura a minha mão. É exatamente nesse lugar tão vazio que a gente tira força da onde não existe.

Tiramos força das pessoas que aqui passaram.

Nesse lugar onde aquela menina tirou coragem, aqui que um dia passei quando era uma criança de cinco anos assustada. Aqui sua avó teve o primeiro filho aos 15 anos de idade depois de um abuso. Aqui sua irmã tirou ar para respirar até o último minuto.

Helena, é aqui que você vai tirar forças quando precisar. É aqui que nós sempre iremos existir. Para sempre. Essa força que envolve laços tão antigos, tão estreitos, que não pode ser limitado por sangue ou geração.

Sabe todas aquelas cartas, querida? Elas começaram para que você pudesse acompanhar a passagem do tempo, como tudo aconteceu, como um dia eu me transformei na mãe que você irá lembrar. Como convivemos com a nossa história.

Guarde nosso segredo não tão secreto.

Com amor,
Mamãe.

Pequeno guia prático para recomeços sem prática

 

12191158_989349761100445_8145514750767878547_oCarta escrita no dia 22 de novembro de 2015. 

Helena,

Quando tinha cinco anos meus pais se separam. E foi difícil. Lembro perfeitamente disso. Dele indo, a minha mãe ficando. Os anos com pouco dinheiro, pouca estabilidade. E lembro das visitas que fazia na casa da minha avó.

Na verdade, lembro muito nitidamente apenas de uma coisa: todo dia no fim da tarde meu pai sentava na beira da rua e ficava olhando o céu. E todo dia, naquele horário, passava um bando de passarinhos. Eles faziam esse mesmo caminho ano após ano. A árvore da frente foi partida por um raio, eu cresci, mas algo me diz que aqueles passarinhos continuam sua eterna caminhada para o outro lado do céu.

E sempre que transponho uma esquina, fecho uma porta ou viro uma página, sempre sinto que estou seguindo um caminho infinitamente antigo. Nossa civilização precisou superar e recomeçar para evoluir. Muitos corações partidos, cidades queimadas, passarinhos sem rumo, cidades extintas, animais esquecidos, uma quantidade inimaginável de partidas e despedidas para que eu, uma mulher sentada no colchão tomando sorvete, pudesse escrever algumas palavras piegas sobre.

E na verdade eu me sinto muito jovem com algumas cicatrizes velhas demais para o meu corpo, minha alma. São estrias, celulites, marcas que mostram um histórico de desistência, desespero, dor, felicidade, duas filhas, alguns relacionamentos fracassados, amizades incríveis e uma aptidão incrível para bater a perna na mesa. Marcas que me fazem humana. Que aprendi a me orgulhar, Helena.

Você vai precisar recomeçar em algum momento da sua vida. Eu sei que vai dar medo, você pode estar numa situação terrível, achar que não vai conseguir, que não dá conta. Recomeços são primitivos. Eles nos fazem questionar por verdades que nos contaram, mentiras que nos convencemos a acreditar, situações tão corriqueiras que a gente pensa que é normal. Recomeçar é uma forma de basta, de revolução. É admitir que não deu certo, mas que nós ainda podemos tentar.

Recomeços envolvem sujeira. É abrir a janela, jogar os tapetes fora, pegar toda aquela lama que a gente coloca nos cantos, por baixo, com medo de que alguém veja, ou pior, fique visível para os habitantes da nossa própria vida. É sujar as mãos, os pés, o corpo e depois lavar com a liberdade.

Recomeçar é deixar doer, deixar sangrar. Admitir que está ruim. Sabe, de tanto responder que tá tudo bem, um dia a gente acredita na própria mentira. Helena, não está tudo bem. Vai doer. Vai ser duro. Você irá aprender, mudar, se transformar. Reformular. E vai ficar tudo bem.

Um dia você vai acordar e vai estar doendo menos. Um dia a falta daqueles velhos tapetes que escondiam com a sujeira será algo bom. Vai entender melhor tudo que houve – e provavelmente vai perceber que não tem culpados, só atitudes ruins, péssimas escolhas. Cicatrizes que você nunca viu. Nunca verá. Outras que terá que conviver por todos os dias da sua vida. E irá se orgulhar, porque elas contam a sua história.

Eu sei que hoje eu não sou nem a sombra da pessoa que já fui. Semana passada estava no ônibus voltando para casa e olhei meu reflexo na janela. Fiquei olhando por minutos. Quando foi que me tornei mulher? Quando foi que meu olhar ficou assim?

Quando foi que eu finalmente assumi que coragem te faz perder pessoas, coisas, sonhos, mas a pior falta que existe é a de si mesmo. Hoje eu me pertenço. Como nunca antes. Recomeçar novamente me fez ver muito bem uma única coisa:  você precisa falar em voz alta.

Precisa dizer não em alto e bom som. Não pode ser só em carta, mensagem e telefonema. Você precisa levar isso para a sua vida, Helena. Precisa ter coragem não de recomeçar apenas, porque isso é consequência, mas de se assumir. De se permitir sonhar.

Quando você ler isso, será adulta. Então hoje te escrevo para contar que do lado de cá, nesse fatídico ano de 2015, nós estamos bem, estamos juntas, resistindo, brincando, comendo, sendo feliz. Por hoje nós conseguimos.

Continuamos olhando para o céu e procurando os passarinhos que a gente sabe, lá no fundo, que continuam voando para o lar. Porque é isso que importa.

Nosso pequeno guia prático para recomeços sem prática nos contou que com música, um pouco de persistência, um tanto mais de barulho, algumas revoluções silenciosas e dores nas costas, nós podemos. Nós conseguimos.

Com amor,
Mamãe.

A última carta

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São Paulo, 11 de agosto de 2015. 

Helena,

Estamos todos aqui para aprimorar a habilidade de ser uma pessoa melhor. Não é bonito, não tem uma linda música tocando ao fundo e quase sempre dói muito antes de você poder concluir que está melhor. Toda recuperação destrói.

Fiquei por duas horas sentada no sofá da nossa antiga casa olhando para a parede. Você brincava no meu pé com seus lápis, e numa das folhas tinha uma casinha, desenhada por alguém num dia mais feliz. Sozinha, cheia de rabiscos por cima, ela habitava aquela página da mesma forma que me sentia.

Naquele momento decidi aceitar os projetos em São Paulo e construir um novo lugar para chamarmos de lar.

Uma semana depois todos os móveis da casa estavam vendidos e tínhamos três malas cheias de roupas, algum dinheiro e a decisão mais difícil que já tomei na vida. Sozinha, apesar dos ótimos amigos, comecei a marretar meus alicerces, queimar lembranças, superar traumas e me dar a chance de ser a pessoa que quero ser.

Me apavora pensar que daqui dez anos você pode olhar para o lado e ver no meu reflexo alguém que desistiu, foi infeliz ou não tentou ser alguém melhor. No caminho errei muito. Aliás, eu tenho errado muito nesse começo da minha vida adulta, e esse erro não tem sido com ninguém mais além da pessoa que sou.

Se respeitar, ouvir e valorizar é uma das coisas mais difíceis dessa vida. Não porque é uma missão impossível, mas porque somos programadas desde cedo para ouvir de outros sobre o nosso valor. De aceitar que gritem na nossa face que não conseguimos nada melhor, que não nos bastamos.

Você vai se machucar, cair, ralar, chorar, virar a esquina, correr no sinal aberto, fazer suas escolhas e colher nelas a sua vida, mas queria te deixar aqui gravado para sempre a lição mais importante que aprendi, que só consegui entender quando perdi tudo pela quinta vez em vinte dois anos: você merece mais.

Você merece se absolver dos pecados que tentaram te convencer que existem. Merece dias melhores, sonhos maiores, sorrisos e beijos molhados, abraços apertados e noites de ventania. Não é fácil, nada é fácil. Vai ter dias que tudo vai dar errado, que você será uma péssima pessoa, vai errar, gritar, chutar os limites e descobrir que está tudo bem. Aprende, corre, alcança, pede desculpa e segue em frente.

Alguns erros não possuem borracha portátil e você terá que conviver com eles para sempre, sentar no trem e ter longas conversas, seguir.

Helena, siga em frente. Não pare. Não deixe que te falem que você não pode, não vai, não merece. Porque você não tem que se diminuir para caber em moldes retrógrados e medíocres, os moldes que devem lhe dar passagem.

Nos piores dias da sua vida repita esse mantra: você consegue. Você pode. Você merece ser feliz. Não deixe que ninguém ouse lhe tirar a oportunidade de ser alguém melhor. No fim somos muito daquilo que fizemos com aquilo que fizeram da gente.

Sigo para os meses mais doidos e intensos da minha vida, meses que vou andar por longas ruas meio quebrada, cheia de feridas e vazios, buscando a mulher que nunca consegui ser plenamente. E você vai estar comigo, minha pequena menina.

Você não vai lembrar e é por isso que te escrevo aqui: em nós mora toda a força do mundo.

Com amor,
Mamãe.

 

Obrigado aos milhares de leitores do Cartas para Helena.
Foi um lindo ano.

 

Intocável e Inquebrável

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Carta escrita no dia 25 de julho de 2015. Chove lá fora.

Helena,

Por meses participei com um coletivo de mulheres incríveis na execução de um evento para discutir o impacto e espaço da mulher na cultura pop. Tudo deu errado até o dia em que me vi lá: tinha conseguido chegar bem. Levei na bolsa dezenas de sobremesas, na cabeça a idéia de que podia mudar algo e no coração a angústia do que eu sabia que seria os próximos meses para nós.

Tudo foi maravilhoso. E eu me vi cercada de gente incrível falando sobre idéias, pequenas revoluções e o espaço da mulher. Quando chegou a última mesa de debate, uma garota que assistia tudo fez uma pergunta “Vocês perderam muito se posicionando? Fizeram inimizades e ficaram mal vistas?”.

Me deu uma baita vontade de chorar na frente de dezenas de pessoas quando ouvi isso, porque eu poderia fazer uma lista de anos e anos de coisas e pessoas que se foram cada vez que eu dizia não, é errado, a culpa não é minha, lide com isso. E talvez o mais doido seja perceber que eu não perdi nada: eu ganhei liberdade.

Quando o médico olhou na TV do aparelho de ultrassom e disse que era uma menina, foi alegria, festa e o medo. Medo porque eu sabia que à partir do momento que você fosse uma mulher a culpa seria sua. Se você não se vestir corretamente, é puta. Se não se sacrificar no altar do casamento, é uma vagabunda. Se não limpar a casa sozinha e feliz, é uma porca. Se tiver o mínimo de sentimentos, é uma louca. Se não cuidar perfeitamente dos seus filhos segundo o padrão de outras pessoas, é uma péssima mãe.

E é muito difícil explicar para quem nos cerca, e geralmente vive essa realidade, o conceito de privilégio. Desenhar de forma bem clara qual a pressão e danos de uma cultura que glorifica homens e crucifica mulheres. Então sim, muita gente foi embora. Muita gente me humilhou e ofendeu. Culpa é algo que vou ter que levar para sempre.

Principalmente quando eu decidi escrever sobre isso, quando tornei público a minha luta e empoderamento, cada vez que descubro algo ou desconstruo um comportamento que sempre acreditei ser certo. Não nasci com essas idéias, fui criada numa família tradicional do Vale do Paraíba, oprimi mulheres a minha vida inteira, não só pela minha cor, mas principalmente pela minha ignorância. Eu ajudei a perpetuar de forma indireta algo que agora luto para destruir.

E eu quero deixar isso aqui registrado para você Helena: eu escolhi não ser mais assim. Foi minha escolha tudo que vai nos acontecer nos próximos meses, e eu vou ter que encarar as consequências disso para o resto da minha vida.

E faço isso com um grande sorriso no rosto, porque eu não posso te escrever “Querida, lute pelos seus sonhos, seja independente e feliz” vivendo na sombra da pessoa que eu sou e quero ser. Vou repetir para qualquer pessoa viva nesse mundo que uma mãe não merece ser infeliz pela maternidade, por um casamento, por uma casa. Dá medo? Sim. Parei para escrever isso enquanto desmonto a casa que por anos lutei para construir, enquanto jogo fora coisas que me foram preciosas.

Lembro da primeira vez que vi algo ser demolido, era uma casa antiga do lado da minha primeira escola. Um dia moravam pessoas ali, na outra semana ela estava vazia e uma semana depois havia uma placa “Interditado para demolição”. Eu não sabia o que a palavra demolição significa, mas entendi que algo ali ia mudar.

Depois de várias semanas, quando saí da escola a esquina estava toda paralisada. Fecharam tudo e as máquinas passavam por cima do que restou do alicerce. Por algum motivo eu senti a angústia, o desespero de ver algo ser reduzido a pó.

Nunca construíram ou plantaram nada naquele terreno, mesmo depois de quinze anos. Eles continua inóspito e infértil. Incoerente.

Não tem problema quando as coisas terminam, quando casas e sonhos são demolidos, mas nenhum terreno interno pode ficar sem florescer.

Nos próximos meses vou trabalhar como nunca antes para conseguir construir um lar para nós. E esse lar não pode ser destruído, quebrado, vendido ou abandonado, porque ele vai existir aqui dentro, embrenhado em sentimentos que são feitos de uma fibra revestida de amor e esperança. Intocável e inquebrável.

Com amor,
Mamãe.

Direções

 

David Ryan Robinson, Britain - 10 Aug 2012Carta escrita no dia 12 de julho de 2015.

Helena,

Faz alguns meses que eu olho para baixo e vejo uma ladeira íngreme, daquelas que dá medo de descer, tropeçar e cair, perder o controle, parar lá no fim, sem sentido algum. Talvez pior do que me sentir assim, tenha sido finalmente perceber que essa era a realidade faz alguns anos. Por meses e meses pavimentei uma estrada que não me levaria a lugar nenhum.

E quando meu primeiro instinto é me culpar, uma culpa que eu sei que vai ser amontoada nos meus ombros não importa o que, mais eu me questiono o quanto da minha realidade eu construí sozinha e qual a parcela que ficou paralela aos meus desejos, mas nunca em sintonia. Eu queria tanto que algo desse certo que não olhei as limitações, as divergências tão gritantes e evidentes.

Uma amiga me disse ontem que eu preciso aprender a desistir. E por mais que eu escreva sobre isso e queira conseguir, eu não sei desistir das pessoas, das situações. O meu medo de abandonar ou ser abandonada é tão maior que meu instinto. E eu me vejo ali cometendo erros que já foram cometidos um milhão de vezes.

Uma direção pode ser definida como duas retas paralelas. Geralmente o conceito de direção é confundido com sentido: uma das das retas pode estar indo para esquerda e a outra para a direita, e mesmo assim se manter paralela. Isso é matemática, mas podia ser só sobre a vida.

Às vezes é preciso desistir da direção para aprender a ter sentido, Helena. E fazer a coisa certa pode ser o ato mais doloroso da sua vida. Pode te partir ao meio, mas nem por isso pode ser ignorado. Ninguém encontra paz se escondendo da verdade, e essa é uma grande amiga da dor. Não conheço ninguém que vai escolher sentir dor, mas sempre escolha a verdade, por mais que ambas vivam numa perfeita simetria.

Eu aprendi a segurar o choro, a não demonstrar amor ou carinho, a conter minha fúria e principalmente a ser alguém que eu jamais serei. Talvez eu tenha me tornado tudo aquilo que sempre ouvi que era. Se por um lado eu estou começando a aprender a não colocar fôlego em causa perdida, eu também aprendi a silenciar minhas causas. Eu sentei em diversas mesas e ouvi sobre tudo que discordo, tentando encontrar argumentos para melhorar a situação. Eu percebi o que estava acontecendo e escolhi centenas de vezes me cegar. A culpa não é de ninguém, tudo isso foi o que eu também permiti.

Algumas violências ninguém comete contra nós, algumas é o dano causado por fazer a exata mesma coisa esperando resultados diferentes. E eu te peço perdão, Helena.

Você não vai lembrar de nada disso, mas eu realmente quero que você me perdoe pelas vezes que perdi a paciência sem motivo algum, que não fiz o meu melhor porque estava muito mal tentando entender qual era o erro.

O erro sempre vai ser não aceitar que algumas coisas não devem permanecer na mesma direção por serem bonitas, mas se separar para continuar mantendo a sinceridade e beleza de possuir um sentido.

Por sorte nosso sentido está agora do meu lado, dormindo, suspirando e sonhando com um futuro que eu sei que teremos.

Vai dar tudo certo.

Com amor,
Mamãe.

Esperança

Noite Estrelada – Van Gogh

 

Carta escrita dia 22 de maio de 2015, na esperança de ver algumas estrelas.

Helena,

Escrevo esta carta na esperança que ela sirva tanto pra você quanto as cartas de sua mãe serviram pra mim. Elas me deram esperança Helena, esperança de que existem pessoas que se importam com o outro, que podem mudar o mundo com doces palavras.

Eu conheci você e sua família através de uma das cartas que ela te escreveu e eu me apeguei tanto a vocês. Desde criança eu sabia que se tivesse uma filha um dia, ela teria o seu nome e isso ainda não mudou, ele representa muito pra mim, e depois de ler as cartas de sua mãe não teve como não me apaixonar por vocês.

Bom Helena, eu tenho 20 anos, sou gay e negro. Aprendi que o mundo tem coisas duras a falar para pessoas como eu, e aprendi também que não importa o que o mundo tem a dizer sobre você, você poder ser qualquer coisa que sonhar. Não deixe que ninguém roube isso, o direito de ser quem você é.

Eu vim para agradecer sua mãe. Tiveram dias difíceis que as cartas dela conseguiram me dar a luz que eu precisava, e tenho certeza que no futuro você vai entender o que estou dizendo.

Nunca perca a esperança Helena, o mundo é muito grande, mas a nossa vontade de que ele seja melhor e justo pra todos é bem maior que ele, e a esperança nos faz ver estrelas mesmo o céu coberto por nuvens.

Tenha uma bela vida Helena, muitas cartas ainda serão escritas e um dia a gente se encontra por ai.

Com muito amor,
Victor.